
Há nove anos, o Movimento Web para Todos (WPT) trabalha para conscientizar, mobilizar e educar pessoas e organizações sobre a importância da acessibilidade digital. Ao longo dessa trajetória, um dos desafios tem sido fazer com que o assunto chegue também a quem ainda teve pouco ou nenhum contato com ele.
O nono ano de operação do WPT foi marcado justamente por essa ampliação. A acessibilidade digital esteve presente em conversas com estudantes, profissionais de empresas, servidoras e servidores públicos, integrantes do Judiciário, pessoas do setor automotivo, da cultura, entre outros segmentos.
São públicos e espaços muito diferentes, mas todos têm potencial para tomar decisões que, direta ou indiretamente, podem contribuir para eliminar ou criar barreiras no ambiente digital.
Levar conhecimento a esses múltiplos contextos é uma forma de ampliar a compreensão de que acessibilidade não é responsabilidade apenas de especialistas ou de profissionais da área de tecnologia. Ela também passa por quem cria conteúdos, desenvolve produtos e serviços, contrata fornecedores, estabelece políticas, educa, comunica e toma decisões dentro das organizações.
“Um dos nossos maiores desafios desde que o WPT nasceu é fazer com que a acessibilidade digital chegue a quem ainda não conhece o tema ou não percebe como ele se relaciona com seu trabalho. Quando conseguimos conversar com estudantes, profissionais de diferentes setores e pessoas que tomam decisões nas organizações, ampliamos as possibilidades de a acessibilidade ser considerada desde o início, e não apenas quando uma barreira já foi criada”, explica Simone Freire, idealizadora do Movimento Web para Todos.
Acessibilidade desde a formação de novos profissionais
Uma parceria que acompanha praticamente toda a história do WPT é um bom exemplo desse trabalho. Há nove anos, o Movimento é uma das organizações apoiadoras do Campus Mobile, programa patrocinado pelo Instituto Claro e realizado pelo LSI-TEC – Laboratório de Sistemas Integráveis.
Na 14ª edição, realizada este ano, o WPT participou de diferentes etapas. Simone Freire ministrou uma palestra sobre acessibilidade digital e Gigi Villari deu mentoria aos participantes, contribuindo especialmente com orientações para que os aplicativos desenvolvidos incorporassem práticas de acessibilidade, independentemente de seu perfil ou segmento. Gigi integrou também a banca responsável pela avaliação e escolha dos melhores projetos da categoria Diversidade.
Participar de uma iniciativa voltada à formação e ao desenvolvimento de novos talentos permite colocar a acessibilidade na conversa enquanto ideias e soluções ainda estão sendo construídas. “Minha missão foi ampliar os horizontes de quem está começando sua trajetória profissional para que considere, desde cedo, diferentes perfis de pessoas na criação de seus produtos digitais”, conta Gigi.
Essa aproximação com estudantes ganhou um novo capítulo em setembro de 2026, em uma ação realizada em parceria com o Google Brasil. Estudantes do ensino médio da Etec Raposo Tavares, de São Paulo, foram convidados a conhecer e experimentar conceitos e práticas de acessibilidade digital no novo Centro de Engenharia do Google no país, localizado no prédio do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), na Cidade Universitária da Universidade de São Paulo (USP).
No dia 8 de setembro, estudantes dos segundos e terceiros anos dos cursos de Administração e Marketing participaram de um “aulão” com uma abordagem mais conceitual sobre o tema. Já nos dias 9 e 10, foi a vez das turmas dos segundos e terceiros anos de Desenvolvimento de Sistemas participarem de oficinas que combinaram conteúdo e atividades práticas.
Nas três ocasiões, as turmas também visitaram o Accessibility Discovery Center (ADC), primeiro centro de acessibilidade do Google na América Latina, onde puderam conhecer e testar diferentes equipamentos e recursos de tecnologia assistiva.
Ao final das atividades, tiraram dúvidas e conversaram sobre como considerar a acessibilidade digital em seus projetos de conclusão de curso e nos que venham a desenvolver no futuro, tanto na faculdade quanto no mercado de trabalho.
Quando o digital faz parte de experiências que vão muito além da tela
Outro espaço em que o tema da acessibilidade digital ganhou visibilidade neste ano foi o cinema. O WPT apoiou a Pesquisa Nacional de Acessibilidade nos Cinemas (PNAC), realizada pela Acessara entre julho e outubro de 2025 com 1.008 pessoas, mais da metade delas pessoas com deficiência.
Os resultados mostraram que as barreiras começam muito antes de alguém entrar em uma sala de exibição. Redes sociais, sites, aplicativos, trailers, compra de ingressos e acesso às informações sobre recursos disponíveis fazem parte da experiência de ir ao cinema.
“Debater a jornada das pessoas no consumo de cultura foi muito impactante porque tornou mais nítido que não é possível desconsiderar a acessibilidade no ambiente digital. Ele é parte crucial dessa experiência, praticamente a ‘porta de entrada’ para a sessão”, enfatiza Simone.
Além disso, Alessa Paiva e Amanda Lyra, coordenadoras da pesquisa, reforçaram que “inclusão acontece na experiência completa e lembraram que o acesso amplo à cultura é um direito humano fundamental”.
Conhecimento chegando ao setor público
O nono ano do WPT também abriu diferentes oportunidades para conversar sobre acessibilidade digital com profissionais do setor público. No final de setembro de 2025, o Movimento realizou uma oficina para servidoras e servidores de diferentes órgãos do Governo Federal, em uma ação de capacitação promovida em parceria com a Secretaria de Governo Digital (SGD), NIC.br e Embaixada Britânica.
Já em maio de 2026, foi a vez da equipe do Tribunal de Justiça de Roraima se aprofundar nas diretrizes de acessibilidade digital. A iniciativa promovida pelo WPT levou esse conhecimento a profissionais que atuam em um contexto no qual o acesso a informações e serviços digitais também está diretamente relacionado ao exercício de direitos e da cidadania.
Em setembro de 2025, o Movimento participou do 16º Seminário Internacional Biblioteca Viva, realizado em São Paulo, ampliando a presença do tema em debates relacionados ao acesso à informação, à cultura e ao conhecimento.
A pauta também chega a novos setores do mercado
Essa ampliação de espaços se estendeu ainda para o setor privado. Em novembro de 2025, o WPT participou do RD Summit, maior evento brasileiro voltado a marketing, vendas, inovação e negócios. Simone Freire e Fernando Campos, jornalista, escritor e embaixador do Movimento, conduziram um painel com reflexões sobre como campanhas realmente inclusivas e acessíveis podem gerar impacto social e resultados concretos para os negócios.
Em junho de 2026, foi a vez do Fórum Diversidade no Setor Automotivo, com nossa participação no painel “Diversidade e IA: inovação para todos ou exclusão automatizada?”, que trouxe à tona os riscos de utilizar inteligência artificial sem considerar critérios de acessibilidade.
A conversa colocou o tema diante de um setor no qual a transformação digital e o uso da IA avançam rapidamente. Também reforçou que tecnologias mais sofisticadas não significam necessariamente experiências mais inclusivas. Sem conhecimento, diretrizes e participação humana, novas soluções podem continuar reproduzindo antigas barreiras.
“A presença nesses diferentes ambientes ajuda a inserir o assunto em discussões sobre inovação, experiência de clientes, inteligência artificial, diversidade e transformação digital, aproximando a acessibilidade de profissionais que talvez ainda não a reconhecessem como parte de suas próprias responsabilidades”, comenta Simone.
Pessoas com deficiência também produzindo conhecimento
Ao mesmo tempo em que busca levar o tema a novos públicos, o WPT continua valorizando a participação de pessoas com deficiência como parte essencial da construção de conhecimento sobre acessibilidade.
Em dezembro de 2025, foi realizada a terceira edição do Curso Introdutório de Qualidade em Acessibilidade Digital para Pessoas com Deficiência Visual, em parceria com a Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB).
A iniciativa contribuiu para ampliar o conhecimento técnico de 40 pessoas que vivenciam diariamente barreiras no ambiente digital e que podem participar profissionalmente da avaliação e melhoria de sites, aplicativos e outros produtos. Suzeli Damaceno, coordenadora pedagógica deste curso, lembra ainda que “este apoio no desenvolvimento profissional de pessoas com deficiência está ligado diretamente à missão do Movimento, que é ampliar a cultura de acessibilidade digital pelo país”.
Essa perspectiva também está presente na Liga Voluntária do WPT, uma rede que reúne cerca de 220 pessoas com e sem deficiência de diferentes áreas de atuação e regiões do país.
Uma rede que multiplica a mensagem
Em maio, o Dia Mundial de Conscientização sobre Acessibilidade (GAAD) mostrou na prática a capacidade dessa rede de levar o assunto para diferentes espaços.
Em vez de concentrar a campanha de 2026 do GAAD em uma única ação, pessoas integrantes da Liga foram convidadas a contribuir de diferentes maneiras. Houve iniciativas em ambientes de educação, tecnologia e empresas, participação em podcast, teste de usabilidade e uma mobilização nas redes sociais.
A mensagem era simples: “eliminar barreiras no ambiente digital é uma responsabilidade coletiva”. Essa descentralização permitiu que o conhecimento circulasse por diferentes redes e chegasse a pessoas que talvez não acompanhassem diretamente os canais do WPT.
Outro caminho para ampliar esse alcance foi o lançamento da série Todos na Web: Acessibilidade em pauta, iniciativa que tem como propósito promover a compreensão qualificada das diretrizes do WCAG 2.2 e da ABNT NBR 17225, apoiando sua implementação prática.
A equipe do Movimento participou da coordenação da produção dos 17 episódios e também das gravações, juntamente com as equipes da Acesso para Todos e do Ceweb.br/NIC.br. Os episódios são disponibilizados em vídeo e áudio e contam com recursos de acessibilidade, incluindo transcrição, Libras, audiodescrição e glossário com termos técnicos.
Nove anos ampliando a conversa
Quando o Movimento Web para Todos surgiu, em 2017, a acessibilidade digital ainda era um assunto desconhecido para grande parte das organizações e profissionais brasileiros.
Nove anos depois, ainda existem muitas barreiras e um longo caminho a percorrer. Mas a pauta circula por mais espaços, encontra novos interlocutores e interlocutoras e passa a fazer parte de discussões que envolvem educação, cultura, serviços públicos, inteligência artificial, experiência de clientes, comunicação, inovação e negócios.
“Para nós do WPT, ampliar essa conversa é parte essencial da transformação que queremos promover. Não basta que a acessibilidade digital seja conhecida apenas por quem já trabalha diretamente com o tema. Queremos que ela chegue a quem planeja, cria, contrata, desenvolve, comunica, ensina e toma decisões que impactam a experiência digital de outras pessoas. É assim que seguimos para o décimo ano de vida, aproximando a acessibilidade digital de novos públicos e espaços e mostrando que uma sociedade mais inclusiva, justa e igualitária também depende da forma como construímos o mundo digital”, finaliza Simone.
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