“O uso de IA sem diretrizes claras de acessibilidade digital vai continuar perpetuando a exclusão”, afirma Simone Freire


Foto de Simone Freire, sentada em uma poltrona no palco do evento, ao lado de outro palestrante do painel. Ela fala ao microfone, que segura com a mão direita, e ergue a mão esquerda para enfatizar a fala.
Simone Freire ao lado de Bruno Simão durante o painel “Diversidade e IA: inovação para todos ou exclusão automatizada?” no Fórum Diversidade no Setor Automotivo. Arquivo pessoal.

A inteligência artificial (IA) já é uma realidade na rotina das grandes corporações. Ela otimiza processos de recrutamento, ajuda na produção de conteúdo e automatiza o desenvolvimento de sites. No entanto, o avanço rápido dessa tecnologia nos faz pensar se a IA veio para eliminar barreiras ou para automatizar a exclusão.  No entanto, o avanço rápido dessa tecnologia traz uma reflexão urgente: a IA veio para eliminar barreiras ou para automatizar a exclusão?

Esse foi o tema central do painel “Diversidade e IA: inovação para todos ou exclusão automatizada?”, realizado durante o 9º Fórum Diversidade no Setor Automotivo, promovido pela Automotive Business nesta segunda-feira, 22 de junho. O debate contou com a participação de Simone Freire, idealizadora do Movimento Web para Todos, que alertou sobre os perigos de usar a tecnologia como desculpa para reduzir investimentos em acessibilidade digital.

“A inteligência artificial acelera o desenvolvimento, mas ela ainda precisa, e vai precisar por um bom tempo, da validação do olhar humano”, afirmou Simone durante o evento.

O mito da solução automatizada

Muitas organizações acreditam que ferramentas automáticas de IA resolvem todos os problemas de acessibilidade sem precisar da ação humana. A realidade, porém, é bem diferente. Sem dados diversos e sem a participação direta de pessoas reais no treinamento dos algoritmos, os sistemas apenas reproduzem vieses e ampliam barreiras.

A engenharia por trás das ferramentas precisa de orientação e “inteligência humana” para ser verdadeiramente inclusiva. Um exemplo prático são os intérpretes virtuais de Libras usados em sites. Embora ajudem no dia a dia, essas soluções ainda falham ao lidar com regionalismos, contextos complexos ou termos altamente técnicos de setores específicos. Sem a orientação e a revisão de pessoas surdas sinalizantes, o recurso perde a eficácia.

O mesmo acontece na produção automatizada de vídeos educacionais e treinamentos corporativos. Se a descrição de gráficos, imagens e outros recursos de acessibilidade para pessoas cegas ou com baixa visão não for incluída desde o planejamento do roteiro, o conteúdo gerado por IA já nasce excluindo uma parcela importante do público.

O treinamento das equipes e a responsabilidade humana

Para evitar que as barreiras digitais se multipliquem em escala automatizada, o foco precisa estar em quem alimenta essas tecnologias. A IA não cria critérios de inclusão sozinha; ela depende dos comandos, dos contextos e das instruções que recebe.

Por isso, o treinamento das equipes de tecnologia, marketing e comunicação é uma etapa fundamental. Se profissionais que operam e programam as ferramentas não tiverem letramento em acessibilidade digital, os novos produtos e canais continuarão “nascendo” inacessíveis. 

Simone sintetizou esse cenário com um alerta direto ao encerrar sua participação no evento: “O uso da inteligência artificial sem diretrizes claras de acessibilidade digital vai continuar perpetuando e automatizando a exclusão.”

A jornada do cliente começa no primeiro clique

Para o mercado corporativo, entender a pluralidade das pessoas consumidoras é uma questão estratégica de negócio. A verdadeira inteligência da tecnologia está em compreender que a experiência de quem vai consumir algum produto ou serviço não começa no espaço físico, mas sim no primeiro contato na web.

O público consumidor é vasto e diverso, englobando quem tem deficiência, além de pessoas idosas e com baixo ou nenhum letramento digital. Grande parte desse grupo tem o desejo e o potencial financeiro para consumir, mas acaba barrado logo no início da sua jornada digital simplesmente porque os canais das empresas não oferecem uma experiência fácil e acessível em seus canais digitais.

Construindo uma inovação em rede

Garantir que a tecnologia seja inclusiva não é um trabalho isolado. Uma inovação responsável precisa ser pensada de forma ampla e colaborativa, envolvendo profissionais de design, desenvolvimento, conteudistas e, essencialmente, a validação de pessoas com deficiência especialistas em acessibilidade digital.

Se a sua empresa está acelerando o uso de IA e quer garantir canais digitais livres de barreiras, conte com o WPT. O Movimento pode apoiar a sua equipe no treinamento e no desenvolvimento de um plano de ação robusto e acessível de ponta a ponta.


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