Por que a acessibilidade precisa fazer parte da jornada completa da doação?


Foto de um laptop aberto sobre uma mesa redonda de café. A mão esquerda de uma pessoa está apoiada no touchpad do teclado. A tela exibe uma página de doação com o texto "DOE AGORA", um ícone de coração vermelho entre duas mãos azuis, o botão "ENVIAR" e a frase "Clique aqui para saber mais".

Todos os dias, milhares de organizações da sociedade civil (OSC) mobilizam pessoas em torno de causas capazes de transformar vidas. Uma campanha nas redes sociais, um vídeo emocionante, depoimentos e apelos de artistas têm um poder enorme de despertar a nossa vontade de contribuir e fazer parte de alguma forma daquele trabalho.

Mas quantas pessoas desistem de doar porque encontram barreiras ao longo dessa jornada? Ainda não há estudos amplamente divulgados que dimensionem essa realidade. Mas, por meio de relatos de quem trabalha neste perfil de organização e de potenciais doadores e doadoras, sabemos que o problema é real e que pode comprometer o sucesso das campanhas. 

Quando falamos em acessibilidade digital, é comum pensar apenas no momento em que a pessoa chega à plataforma de doação. Na prática, porém, a experiência começa muito antes. Ela passa pelo anúncio que desperta o interesse, pelo conteúdo que explica a causa, pelo acesso ao site da organização, pela compreensão do impacto da doação e, finalmente, pela conclusão do pagamento, geralmente realizada em plataformas especializadas e terceirizadas. Se houver obstáculos em qualquer uma dessas etapas, a jornada pode ser interrompida.

Uma jornada composta por muitas etapas

Imagine uma pessoa que conhece uma campanha por meio de um vídeo publicado nas redes sociais. Se este não possui legendas, pessoas surdas podem não compreender a mensagem. Se houver só uma música emocionante de fundo sem narração, quem tem cegueira ou baixa visão não entenderá o propósito daquela ação.

Se a arte apresenta pouco contraste entre texto e fundo, pessoas com baixa visão e/ou daltonismo podem ter dificuldade para ler. Se o QR Code aparece rapidamente na tela da TV, muita gente talvez não consiga apontar o celular a tempo.

Ao acessar o site da organização, novos desafios podem surgir, como textos longos e complexos, navegação confusa, imagens sem descrição, formulários difíceis de preencher ou botões pouco claros e intuitivos.

Mesmo que tudo isso funcione bem, ainda existe a etapa decisiva, que é a plataforma responsável pela efetivação da doação. Muitas organizações utilizam serviços terceirizados para realizar esse tipo de pagamento. Caso essas plataformas apresentem barreiras de acessibilidade, o processo pode ser interrompido justamente no momento em que a pessoa doadora está pronta para contribuir.

Em outras palavras, não basta que apenas uma parte da experiência seja acessível. A jornada precisa funcionar do começo ao fim.

Barreiras que afetam muito mais pessoas do que imaginamos

A acessibilidade costuma ser associada às pessoas com deficiência, mas seus benefícios alcançam um público muito mais amplo como os citados abaixo, partindo do pressuposto que em todos esses casos existe a intenção de doar:

  • Pessoas idosas podem enfrentar dificuldades com letras pequenas, excesso de informações na tela ou etapas complexas de autenticação.
  • Pessoas com deficiência visual dependem de leitores de tela para navegar em sites e aplicativos.
  • Pessoas com deficiência motora podem não conseguir utilizar componentes que exigem movimentos muito precisos do mouse.
  • Pessoas surdas podem deixar de compreender vídeos sem legendas.
  • Imigrantes que ainda não dominam o nosso idioma podem encontrar dificuldades em textos técnicos, burocráticos ou com metáforas e expressões regionais.
  • Pessoas com baixo letramento digital podem desistir diante de formulários confusos, excesso de campos obrigatórios ou mensagens de erro difíceis de entender.

A confiança também passa pela experiência digital

O Relatório Global World Giving Index 2025 mostra que a solidariedade continua forte em diferentes países.

Em 2024, ano em que as entrevistas foram realizadas, seis em cada dez pessoas realizaram algum tipo de doação ou ação solidária, e 61% da população mundial participou de iniciativas sociais. No Brasil, 59% da população realizou algum tipo de doação.

O estudo também revela fatores importantes para quem trabalha com captação de recursos. O senso de pertencimento à comunidade e a transparência sobre a utilização dos recursos aparecem diretamente associados ao aumento das doações. Entre as pessoas entrevistadas, 63% afirmaram que aumentariam o valor de suas contribuições caso houvesse mais transparência, enquanto 47% gostariam de visualizar com maior clareza o impacto gerado pelas doações realizadas.

Esses dados mostram que conquistar a confiança de quem doa depende de vários fatores. A experiência digital faz parte dessa construção. Afinal, quando alguém encontra dificuldades para compreender informações, navegar pelo site ou concluir uma doação, a percepção sobre a organização também pode ser afetada.

O objetivo da acessibilidade digital é justamente remover barreiras para que diferentes perfis consigam acessar informações, navegar, compreender conteúdos e realizar tarefas com autonomia e segurança. Isso envolve programação, design, produção de conteúdo e processos organizacionais.

Pequenas melhorias podem fazer grande diferença

Nem toda organização possui equipe especializada ou orçamento para realizar uma transformação completa em seus canais digitais. Essa é a realidade de grande parte das organizações da sociedade civil aqui no país.

A boa notícia é que muitos avanços podem começar por ações relativamente simples como as listadas a seguir:

  • Escrever em linguagem mais clara, preferencialmente seguindo as recomendações da Linguagem Simples.
  • Adicionar legendas aos vídeos, que pode ser feito, inclusive, por ferramentas gratuitas como o CapCut e o próprio YouTube.
  • Garantir bom contraste entre textos e fundo de página. Há várias opções de ferramentas sem custo, como o Adobe Color. 
  • Descrever imagens importantes da sua campanha.
  • Revisar se formulários podem ser preenchidos utilizando apenas o teclado passando pelos campos usando a tecla Tab.
  • Testar a jornada de doação com pessoas de diferentes perfis.
  • Verificar se o QR Code permanece tempo suficiente na tela e se está numa posição fácil de ser acessada por pessoas idosas ou com mobilidade reduzida.
  • Avaliar se as mensagens de erro realmente ajudam internautas a resolverem o problema e se estão bem fáceis de localizar.

Importante lembrar que esses exemplos de diretrizes de acessibilidade digital beneficiam diretamente pessoas com deficiência, mas também tornam a experiência mais simples para todos os públicos.

Quando a plataforma é terceirizada

É comum que organizações utilizem plataformas especializadas para processar pagamentos e gerenciar doações recorrentes. Nesses casos, parte da experiência está fora do controle direto da OSC. Isso, porém, não significa que o tema deixe de ser responsabilidade da instituição.

Assim como critérios de segurança, estabilidade e custos fazem parte da escolha de uma empresa fornecedora, a acessibilidade também pode e deve ser considerada.

Você pode conferir aqui algumas dicas sobre como contratar e checar serviços de acessibilidade digital para sua organização e fazer as seguintes perguntas a responsáveis pelas plataformas de doação para iniciar o diálogo:

  • A plataforma segue diretrizes reconhecidas de acessibilidade digital, como as WCAG a ABNT NBR 17225?
  • É compatível com leitores de tela?
  • Permite navegação apenas pelo teclado?
  • Os formulários apresentam mensagens claras quando ocorre algum erro?
  • Existem testes realizados com pessoas com deficiência, idosas e com baixo letramento digital?

Quanto mais organizações passarem a fazer esse tipo de questionamento, maior tende a ser o incentivo para que as plataformas de doação evoluam seus produtos. Segundo Simone Freire, idealizadora do Movimento Web para Todos, essa responsabilidade precisa ser compartilhada por toda a cadeia envolvida. “É o que chamamos de corrente do bem. Hoje, praticamente tudo passa pelo digital e todos os sistemas estão integrados. Não vai adiantar apenas uma parte ou organização se preocupar 100% com a acessibilidade se o restante da cadeia onde está inserida não tiver essa mesma preocupação e compromisso”.

Tornar a doação possível para mais pessoas

Toda campanha nasce com o desejo de ampliar seu alcance e mobilizar o maior número possível de apoiadores e apoiadoras. Prestar atenção na acessibilidade da jornada completa significa justamente ampliar esse potencial.

Quem consegue compreender uma campanha, navegar com autonomia, confiar nas informações apresentadas e concluir sua doação sem complicações tem muito mais chances de transformar sua intenção em apoio concreto.

Em um cenário em que a sustentabilidade financeira das OSCs depende da construção de relações duradouras com seu público doador, eliminar barreiras digitais deve subir de nível na lista de prioridades e integrar a estratégia de captação de recursos e relacionamento com o público doador.

A acessibilidade digital precisa ser encarada pelas organizações como uma estratégia para fortalecer vínculos, ampliar o alcance das causas e permitir que mais pessoas exerçam algo que já demonstram querer fazer, que é contribuir para a transformação social, mas que muitas vezes se frustram e desistem no meio do caminho.


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