
A forma como interagimos com a web está mudando rapidamente. Se antes ela era um espaço onde navegávamos, clicávamos e preenchíamos informações manualmente, agora começa a surgir um novo modelo, que são os sistemas capazes de agir por nós.
É nesse contexto que entra a chamada web agêntica, tema que vem ganhando espaço nos debates sobre o futuro da tecnologia e que levanta perguntas importantes para quem atua com acessibilidade digital.
Essa transformação pode ajudar a remover barreiras ou criar novos problemas? Investir em acessibilidade em sites e aplicações web ainda será necessário nesse cenário? E qual o papel da inteligência artificial (IA) na construção de experiências mais inclusivas?
Para responder a essas e outras questões, conversamos com o pesquisador e designer Renan Binda, que investiga como agentes inteligentes podem atuar como mediadores entre pessoas e ambientes digitais.
Ao longo da conversa, ele explica por que a acessibilidade não perde importância e se torna, na verdade, ainda mais essencial. Ele também faz um alerta para o equívoco de acreditar que a IA pode “resolver” problemas estruturais de uma web mal construída.
Confira a seguir a entrevista com o Renan e conheça a ferramenta metodológica criada por ele para facilitar o dia a dia de equipes que desenvolvem produtos digitais e querem tornar a acessibilidade um padrão.
WPT: Do que se trata sua pesquisa atual sobre web agêntica?
Renan Binda: Minha pesquisa, desenvolvida no âmbito do meu pós-doutorado com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foca na transição da web de “páginas para ler” para “serviços para agir”. Investigo como os “sistemas de mediação inteligente” podem atuar como uma ponte entre a pessoa usuária e o ambiente digital.
O objetivo é garantir que essa nova camada de inteligência, a chamada “Web Agêntica”, funcione como um assistente personalizado que compreende o contexto e as necessidades de cada pessoa, com as tarefas sendo executadas de forma autônoma. Tem potencial para ser no mínimo um agente de inclusão que remove barreiras de interação em tempo real.
WPT: Web agêntica já é algo presente no nosso dia a dia ou é ainda uma tendência?
Renan Binda: Estamos vivendo a transição. Já tem um pouco disso em assistentes que gerenciam reservas ou agendas, mas a Web Agêntica como vem sendo discutida, onde agentes de diferentes ecossistemas conversam entre si para resolver problemas de pessoas usuárias, ainda é uma tendência que vai se consolidar.
Agora as discussões estão em torno da interoperabilidade segura. Atualmente, nossos esforços de pesquisa estão voltados para os limites dessa autonomia. Como garantir que um agente execute tarefas por nós sem comprometer a privacidade ou a segurança dos dados? Para o campo da acessibilidade, isso é importante, é a base, pois a autonomia do agente deve ampliar a autonomia da pessoa usuária.
WPT: Há riscos de as empresas abandonarem planos de acessibilidade porque os agentes “se viram sozinhos” e são capazes de transpor barreiras de acesso?
Renan Binda: Existe esse risco sim, um equívoco perigoso. Acreditar que a IA “conserta” uma web mal construída é uma falha estratégica. Comparo isso com, por exemplo, dizer que não precisamos de rampas porque existem robôs que carregam cadeiras de rodas pelas escadas.
Em sites sem estrutura semântica (como a que defendemos na ABNT NBR 17225), o agente de IA pode alucinar ou interpretar dados errados. A acessibilidade é o que fornece precisão para a máquina trabalhar. Sem ela, o agente perde a orientação programática necessária para realizar tarefas com segurança. Na prática, um site inacessível para humanos é um ambiente de alta incerteza para a inteligência artificial.
A acessibilidade se torna infraestrutura na Web Agêntica, se torna uma “API natural” para a máquina. Se um site é acessível e bem estruturado, ele é legível para qualquer agente. A acessibilidade passa a ser o diferencial competitivo que permite que os serviços de uma empresa sejam consumidos também por IAs de terceiros, isso amplia o alcance do negócio.
WPT: As tecnologias assistivas (leitores de tela, etc.) terão de ser atualizadas?
Renan Binda: Sim, elas estão evoluindo para se tornarem, elas mesmas, agentes inteligentes. Além de ler o que está na tela (uma tarefa passiva), as futuras tecnologias assistivas serão proativas. O Copilot Vision, por exemplo, já sinaliza esse futuro ao analisar o conteúdo visual, identificar padrões e sugerir ações em tempo real. Em vez de apenas anunciar um ‘botão enviar’, ele entende o contexto e diz: “Este botão envia sua declaração; quer que eu valide os dados para você antes de clicar?”.
Na Web Agêntica a tecnologia assistiva evolui da tradução de interface para a mediação de intenções. Imagine, por exemplo, uma pessoa usuária que precisa solicitar um serviço em um portal governamental. Hoje, ela precisa navegar por menus, encontrar o PDF correto, baixá-lo, preenchê-lo e depois anexá-lo em um e-mail.
Com a mediação inteligente, a pessoa expressa a intenção dizendo, por exemplo, “preciso solicitar minha certidão tal”. O agente, atuando como tecnologia assistiva, navega pelo site, identifica o formulário, extrai os campos necessários, auxilia a pessoa usuária no preenchimento (ou preenche com dados já autorizados), gera o documento e prepara o e-mail de envio. O que eram várias etapas manuais e cheias de barreiras se torna uma única conversa fluida, onde o agente resolve a burocracia técnica e a pessoa foca na tomada de decisão.
WPT: Como agentes de IA podem ser úteis para o desenvolvimento e manutenção de sites acessíveis?
Eles são muito úteis no suporte a profissionais de desenvolvimento. Ferramentas como o CADUX, que desenvolvi para materializar as diretrizes da NBR 17225 e facilitar o entendimento da experiência da pessoa usuária, podem ser potencializadas por agentes de IA. Esses agentes conseguem auditar código em tempo real, sugerir correções semânticas e até gerar descrições contextuais para imagens, algo que antes dependia de um esforço manual.
Imagine, por exemplo, o fluxo de um site governamental onde a pessoa precisa baixar um PDF, preenchê-lo e enviá-lo por e-mail. Um agente de IA pode auxiliar equipes de desenvolvimento a testar, ainda na fase de criação, se essa jornada é tecnicamente viável para uma tecnologia assistiva. Ele atua como um “especialista em acessibilidade” de plantão, e essa manutenção proativa assegura uma evolução contínua da experiência a cada nova atualização do site.
Quando a acessibilidade digital entra no processo de criação

Além das reflexões sobre Web Agêntica, a pesquisa de Renan também se desdobra em soluções práticas para o dia a dia de equipes que desenvolvem produtos digitais. Uma delas é o CADUX (Cards para Acessibilidade Digital e UX), uma ferramenta metodológica criada para transformar a complexidade das normas técnicas (como a ABNT NBR 17225) em algo mais tangível e aplicável.
Na prática, o CADUX funciona como um “tradutor” da acessibilidade. Em vez de depender exclusivamente de documentos extensos e densos, profissionais de design e desenvolvimento podem utilizar cartas que apresentam diretrizes de forma visual, direta e conectada à experiência da pessoa usuária.
Essa abordagem ajuda a resolver o desafio comum de lidar com conceitos que, muitas vezes, parecem abstratos, como semântica de código, foco de navegação ou contraste. Ao materializar esses elementos em situações práticas, o CADUX facilita a compreensão e a aplicação no contexto real de projetos.
Outro diferencial está na forma como a ferramenta se integra ao processo de criação. Em vez de ser utilizada apenas como checklist ao final do desenvolvimento, ela permite que a acessibilidade seja considerada desde o início, como parte das decisões de design.
Além disso, contribui para democratizar o conhecimento dentro das equipes, dando mais autonomia para profissionais que não são especialistas no tema e tornando revisões e auditorias mais ágeis e colaborativas.