
Desde o dia 11 de junho nossa atenção está voltada para a Copa do Mundo de 2026. No entanto, a experiência de torcer para milhões de pessoas esbarra na falta de recursos acessíveis nas transmissões em diferentes canais digitais, já que não conseguem acompanhar as jogadas com autonomia, seja diante da televisão, nas redes sociais ou no celular.
Para entender como as pessoas com deficiência no mundial têm acompanhado os jogos, fomos atrás de relatos reais por meio de conversas com nossa Liga Voluntária, pesquisamos a respeito de novas tecnologias de transmissão e buscamos soluções criativas que mostram o real cenário da inclusão digital. Ao reunir esses depoimentos e iniciativas, destacamos ferramentas que provam como o esporte mais popular do planeta pode, e deve, ser para todo mundo.
O que faz uma transmissão ser acessível?
Logo no início do campeonato, perguntamos para quem tem deficiência e integra nossa Liga Voluntária o que torna uma transmissão esportiva realmente acessível. Os relatos mostram que uma boa narração faz toda a diferença. No entanto, quando profissionais da locução conversam mais do que descrevem os lances em campo, quem não enxerga tem muita dificuldade em entender o que se passa ali. É por esse motivo que muita gente ainda prefere acompanhar os jogos pelo rádio, onde a descrição dos movimentos da bola e dos atletas é mais detalhada justamente por não ter a imagem disponível.
Além disso, recursos como a audiodescrição e a Língua Brasileira de Sinais (Libras) são fundamentais. Pelo lado das pessoas neuroatípicas, o excesso de estímulos visuais, gráficos poluídos e efeitos sonoros exagerados na tela também podem se transformar em grandes barreiras que podem comprometer muito o entretenimento.
O design inclusivo nas chuteiras da Copa
Uma curiosidade visual deste ano acabou virando uma aula de design inclusivo nas redes sociais do WPT. Muitas marcas esportivas escolheram a cor rosa para as chuteiras dos atletas. Essa decisão não tem relação apenas com a estética ou tendências de mercado, mas também com o contraste. O rosa se destaca fortemente contra o verde do gramado, facilitando a percepção dos movimentos por quem assiste aos jogos pela TV ou pelo celular.
Esse exemplo do futebol serve de alerta para o universo virtual. Garantir um bom contraste de cores em sites e aplicativos é essencial para que pessoas com baixa visão ou daltonismo consigam ler as informações. O recurso ajuda até mesmo quem tenta navegar no celular sob a luz forte do sol.
Para incentivar que novos ambientes virtuais já nasçam com esse cuidado e ajudar a validar o que já está no ar, disponibilizamos diversos conteúdos voltados ao design inclusivo em nossa biblioteca virtual. Por lá, é possível encontrar ferramentas gratuitas para testar o contraste de páginas da web, apresentações ou postagens nas redes sociais, que ajudam a corrigir falhas e melhorar a experiência de navegação de ponta a ponta.
A promessa da TV 3.0 e a tecnologia assistiva
Durante o torneio de 2026, mais de 21 milhões de pessoas em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro começaram a testar o sinal experimental da TV 3.0. A nova geração de televisão aberta e gratuita traz a possibilidade de escolher recursos de acessibilidade como legendas customizáveis, gerador de Libras e áudio imersivo, permitindo alternar entre o som da narradora ou narrador com o da torcida.
Enquanto a tecnologia das transmissões avança, a falta de acessibilidade em produtos oficiais ainda barra a diversão fora das telas. Um exemplo é o álbum de figurinhas oficial da Copa do Mundo de 2026. Esse ato de colecionar virou uma verdadeira febre nacional, movimentando milhões de pessoas em pontos de troca e coleções digitais. Porém, esse movimento ignora quem tem deficiência visual devido à total ausência de recursos inclusivos no material impresso.
Em um vídeo que repercutiu nas redes, os criadores de conteúdo Rodolfo e Peu testaram aplicativos para escanear as imagens e tentar reverter a situação. Eles indicaram o Cromo26 e o Sticker Album como as melhores opções do mercado. Embora os dois sistemas não tenham sido desenvolvidos especificamente para o público com deficiência visual, acabam oferecendo um caminho importante de autonomia compensando a falta de uma versão oficial do álbum em Braille ou com letras ampliadas.
Autonomia digital para vivenciar a paixão nacional
As barreiras encontradas em transmissões, sites e aplicativos durante a Copa do Mundo reforçam que a acessibilidade digital não pode ser um detalhe secundário. Garantir recursos acessíveis nos canais virtuais é o que permite que torcedoras e torcedores interajam, se informem e consumam o esporte de forma totalmente independente.
A inclusão digital precisa ser a regra e não a exceção. Quando o ecossistema digital remove os obstáculos estruturais, a tecnologia cumpre o seu verdadeiro papel, que é aproximar pessoas e permitir que todo mundo compartilhe da mesma emoção e cidadania ao acompanhar as partidas de futebol dentro e fora dos campos.
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