
Você sabia que o Brasil tem um validador de acessibilidade digital desenvolvido por pesquisadores de universidades públicas? O AMAWeb nasceu para ajudar na fiscalização da web no país. Muito além de rodar um teste automático de código, a plataforma foi criada para oferecer apoio técnico, produzir evidências e contribuir para que os direitos das pessoas com deficiência sejam respeitados no ambiente digital.
A história da ferramenta começou em 2020, a partir de uma parceria entre a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e o Ministério Público Federal. Na época, procuradores enfrentavam dificuldades para dar andamento a denúncias sobre falta de acessibilidade em páginas da web.
Uma pesquisa coordenada por Tiago Silva da Silva, professor associado em Ciência da Computação da Unifesp, analisou 26 processos de ações civis públicas relacionadas à acessibilidade digital e revelou um dado preocupante. Quinze dessas denúncias acabaram arquivadas sem passar por nenhuma avaliação técnica. Além disso, os casos levavam, em média, três anos e meio para ter um desfecho.
“A ideia surgiu de uma demanda real. O Ministério Público nos procurou porque faltavam evidências técnicas para embasar as denúncias de acessibilidade em sites brasileiros”, explica Tiago.
Para mudar esse cenário, os pesquisadores se inspiraram no AcessMonitor, ferramenta do governo de Portugal, e desenvolveram uma solução adaptada à realidade brasileira. Hoje, o projeto reúne a Unifesp, o Instituto Federal do Rio Grande do Sul, o NIC.br e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
Público, gratuito e alinhado às normas brasileiras
Diferentemente de soluções comerciais, o AMAWeb é um projeto acadêmico e de interesse público financiado com recursos públicos. A plataforma é gratuita, independente e desenvolvida para dialogar tanto com as diretrizes internacionais de acessibilidade, como a WCAG, quanto com a norma brasileira ABNT NBR 17225, que estabelece requisitos e recomendações para acessibilidade em conteúdos e aplicações web.
Segundo Tiago, o objetivo do projeto nunca foi criar uma ferramenta única para substituir todas as outras disponíveis no mercado.
“O AMAWeb não foi concebido apenas como um validador automático. A ideia é oferecer um ecossistema de apoio à acessibilidade digital. O portal reúne o avaliador, um manual com orientações técnicas, um checklist para auditorias, um observatório para acompanhar a evolução das páginas e, em breve, um gerador de declarações de acessibilidade.”
Por que uma nota alta não garante acessibilidade
Uma das principais preocupações da equipe foi evitar que os resultados da plataforma fossem interpretados de forma simplificada. Além disso, os pesquisadores destacam que nenhum validador automático, por si só, é capaz de determinar se uma página é acessível. Ferramentas diferentes utilizam motores e regras diferentes e, por isso, podem identificar problemas distintos.
Durante muitos anos, validadores automáticos utilizaram notas numéricas acompanhadas de cores para indicar a qualidade de uma página, o que levava à impressão de que uma nota alta significava que o site estava acessível.
Para evitar esse tipo de interpretação, o AMAWeb eliminou o sistema de cores. “Retiramos as cores da nota para evitar que ela fosse interpretada como um selo de acessibilidade. Uma nota 10 não significa que a página está totalmente acessível. Hoje, se uma página tira 10 no AMAWeb, isso quer dizer que ela atende a cerca de 40% dos critérios da WCAG que podem ser automatizados. Então, mesmo com a nota máxima, não existe garantia de que a página esteja acessível. É um indício de que ela não está de todo ruim, mas não uma garantia.”
Segundo o pesquisador, a nota pode ser útil como um indicador para acompanhar a evolução de uma página ao longo do tempo, comparar resultados e ajudar na priorização de correções. No entanto, ela não substitui uma avaliação completa, que deve combinar testes automatizados, inspeção manual e, sempre que possível, testes com pessoas com deficiência.
O que os validadores conseguem verificar
Os testes automáticos conseguem identificar problemas objetivos no código, como a ausência de texto alternativo em imagens, erros de estrutura ou falhas de marcação. O que eles não conseguem avaliar com confiabilidade é o significado dessas informações.
Um texto alternativo pode existir e, ainda assim, ser inadequado. Ferramentas de inteligência artificial conseguem gerar descrições automaticamente, mas elas podem interpretar uma imagem de forma incorreta.
“Hoje ainda não existe uma tecnologia madura capaz de verificar, de forma confiável, se um texto alternativo realmente faz sentido para aquela imagem. Há pesquisas em andamento, mas esse é um desafio que ainda depende da interpretação humana.”
Outro ponto importante é que o AMAWeb avalia páginas individualmente. Uma página pode estar acessível enquanto outras do mesmo site apresentam problemas, o que reforça a necessidade de monitoramento contínuo.
Para uma avaliação mais confiável, Tiago explica que o processo ideal combina testes automatizados, inspeção manual e, sempre que possível, testes com pessoas com deficiência.
Um ecossistema para monitorar a acessibilidade ao longo do tempo
Com o objetivo de apoiar equipes técnicas, auditoras e órgãos fiscalizadores, o portal do AMAWeb organiza suas soluções em diferentes módulos.
- Avaliador automático, que verifica o código da página e aponta erros estruturais.
- Manual explicativo, que simplifica a complexidade das normas WCAG e as organiza de forma intuitiva e didática para ajudar na implementação das melhores práticas de acessibilidade.
- Checklist online, baseado na ABNT NBR 17225 para apoiar auditorias manuais.
- Observatório, que monitora a evolução da acessibilidade em páginas públicas ao longo do tempo.
Segundo Tiago, um dos diferenciais da plataforma é justamente permitir o acompanhamento contínuo da acessibilidade. Como páginas e sistemas mudam constantemente, um site que hoje apresenta bons resultados pode voltar a ter barreiras após uma atualização.
O futuro do AMAWeb
Entre os próximos passos do projeto estão o lançamento de um gerador de declarações de acessibilidade, desenvolvido em parceria com o NIC.br, e um serviço voltado ao monitoramento contínuo de páginas por órgãos públicos e instituições.
A expectativa da equipe é ampliar a infraestrutura da plataforma e consolidar o AMAWeb como uma referência pública para avaliação, monitoramento e transparência em acessibilidade digital no Brasil.