
Como uma Instituição de Ensino Superior (IES) pode identificar barreiras de acessibilidade digital que acompanham estudantes desde a busca por um curso até a conclusão da graduação? Um grupo formado por seis integrantes da Liga Voluntária do Movimento Web para Todos passou quase dois anos estudando essa questão e transformou o conhecimento reunido neste período em uma ferramenta prática para as IES.
O “Checklist de acessibilidade digital para Instituições de Ensino Superior com foco na jornada de estudantes” permite que as próprias IES façam uma autoavaliação de diferentes etapas da experiência acadêmica e identifiquem pontos que precisam avançar em acessibilidade. O material está disponível gratuitamente pelo Movimento e é resultado do primeiro grupo de estudos criado dentro da Liga. O trabalho começou em outubro de 2024 sem que seus participantes soubessem exatamente qual seria a entrega final.
Uma pergunta deu início ao trabalho
A ideia de criar grupos de estudos surgiu entre integrantes da própria Liga, que sugeriram a formação de equipes interessadas em aprofundar diferentes temas relacionados à acessibilidade. O WPT decidiu, então, testar o formato e propôs a acessibilidade digital nas universidades como tema do grupo piloto. A escolha considerou o potencial das instituições de ensino superior para ampliar o conhecimento sobre o assunto e contribuir para que a acessibilidade esteja presente de forma transversal na formação de profissionais de diferentes áreas.
O convite foi aberto à Liga. Cerca de nove pessoas começaram a participar e seis permaneceram até a conclusão do trabalho. Todas conhecem bem o ambiente acadêmico, estudam acessibilidade digital e atuam direta ou indiretamente com estudantes com diferentes tipos de deficiência.
Na primeira reunião, o grupo começou tentando responder a uma pergunta que ajudaria a direcionar os estudos: “Por que a acessibilidade digital ainda não é prioridade nas IES, mesmo estando presente nas avaliações do Ministério da Educação (MEC)?”. Cada participante trouxe suas experiências e hipóteses. O grupo também pesquisou como diferentes universidades abordavam o assunto e passou a compartilhar referências, descobertas e reflexões.
Carmen Justo, docente no Centro Universitário Barão de Mauá, destaca a troca de conhecimentos proporcionada pelo trabalho. “Participar deste grupo e desenvolver este projeto de forma coletiva foi inspirador. A troca de experiências entre os profissionais do grupo confirma a importância do tema e a relevância do planejamento efetivo de conteúdos acessíveis e inclusivos no dia a dia das instituições de ensino superior”, afirma.
O formato surgiu durante o processo
O grupo realizou entre 10 e 15 encontros online, uma vez que seria a única forma possível considerando que as pessoas são de diferentes estados do Brasil, como Minas Gerais, São Paulo, Ceará, Pernambuco e Distrito Federal. O trabalho também avançou de forma assíncrona, com intensa troca pelo WhatsApp, pesquisas individuais e produção em documentos colaborativos.
Desde o início, havia o compromisso de compartilhar publicamente o conhecimento produzido. Ninguém sabia, porém, qual formato essa entrega teria. Diferentes possibilidades foram discutidas ao longo do processo. Entre elas estavam um estudo com perfil acadêmico, um evento online, um curso de acessibilidade digital para profissionais de Tecnologia da Informação das IES e um guia com orientações para tornar os canais digitais mais acessíveis.
A definição aconteceu aos poucos, à medida que o próprio foco do grupo amadurecia. Lane Primo, consultora em Design para experiências de aprendizagem inclusivas, viu nesse percurso uma oportunidade de aproximar conhecimento acadêmico e aplicação prática. “Foi a oportunidade de transitar da experiência acadêmica para um ‘concretizar’ útil e relevante, pensado para tornar as jornadas das pessoas estudantes mais proveitosas, satisfatórias e autônomas”, conta.
A acessibilidade começa antes da aula
Uma das principais conclusões das discussões foi que olhar apenas para uma área da instituição poderia reforçar a ideia de que a acessibilidade pertence a um departamento específico. Assim, o grupo decidiu ampliar o foco e acompanhar a jornada completa de estudantes numa IES.
Esse percurso começa antes do ingresso num curso superior. Uma pessoa precisa conseguir pesquisar cursos, acessar e compreender informações sobre o processo seletivo, fazer sua inscrição e realizar a matrícula. Durante a vida acadêmica, precisa interagir com sistemas, materiais de aprendizagem, ambientes virtuais e ferramentas de comunicação. Ficou evidente que a acessibilidade continua sendo necessária até a conclusão do curso e o acesso a documentos relacionados à formação.
Cristiane Ikenaga Fernandes, docente nas áreas de Computação e Tecnologia da Informação e Comunicação no Centro Universitário Senac, considera essa perspectiva uma das contribuições mais relevantes do projeto. “O que considero muito importante neste trabalho é que a questão da acessibilidade digital foi contemplada ao longo de toda a jornada da vida acadêmica de estudantes, e não somente no momento das aulas e desenvolvimento das atividades, como diversas vezes é considerado. Ter essa perspectiva completa, e não segmentada, é essencial”, explica.
Marcelo Penha, professor do bacharelado em Design da CESAR School, também chama a atenção para a amplitude desse olhar. “Pensar em acessibilidade na educação superior é ir além de oferecer ferramentas para estudantes com deficiência desenvolverem seus estudos. É pensar em toda a jornada, que começa antes mesmo da aprovação no processo de seleção”, destaca.
Conhecimento técnico ganha aplicação prática
O grupo transformou essa jornada em um conjunto de checklists que contempla a descoberta da universidade, o processo seletivo, o ingresso, a matrícula e a vida acadêmica. Nesta última etapa, entram gestão acadêmica, recursos de aprendizagem, Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), ferramentas de comunicação e conclusão do curso.
Os itens foram elaborados com base na norma ABNT NBR 17225:2025 — Acessibilidade em conteúdo e aplicações web que, por sua vez, foi baseada na versão 2.2 do WCAG (Web Content Accessibility Guidelines, traduzido para o português como Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web). O grupo optou por descrevê-los de maneira simplificada para que o material pudesse ser utilizado por pessoas de diferentes áreas nas IES e com diferentes níveis de conhecimento sobre acessibilidade digital.
As perguntas levam as instituições a observar situações do cotidiano. O site pode ser navegado apenas pelo teclado? As imagens informativas possuem texto alternativo? As informações sobre o processo seletivo são claras e compreensíveis? Estudantes conseguem indicar necessidades de acessibilidade durante a matrícula? Os materiais de aprendizagem são acessíveis? Os canais de comunicação oferecem diferentes formas de interação?
Ileidiane Ribeiro, técnica em assuntos educacionais na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e uma das fundadoras do Núcleo de Apoio Pedagógico da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), destaca justamente esse esforço de aproximar os conhecimentos técnicos da rotina das instituições. “O destaque do processo foi o compromisso do grupo em simplificar conceitos e gerar práticas reais para a rotina da universidade, mostrando que garantir autonomia a quem vive o ensino superior é o que de fato transforma a educação e acessibilidade para todas as pessoas”, ressalta.
Autoavaliação ajuda a identificar onde avançar
Os checklists permitem que as instituições observem seus canais e processos digitais, identifiquem pontos de melhoria e estabeleçam prioridades. O e-book apresenta o material como um roteiro inicial para a implementação de melhorias contínuas.
Cada pergunta pode receber as respostas “Sim”, “Em partes” ou “Não/Não sei”. A pontuação indica como a instituição se encontra em cada etapa da jornada avaliada. O material estabelece três estágios chamados Alerta, Em evolução e Inclusivo.
O estágio “Alerta” sinaliza riscos de exclusão. “Em evolução” indica que já existem iniciativas, mas ainda permanecem barreiras. Já o estágio “Inclusivo” aponta que a acessibilidade está incorporada de forma mais consistente aos processos avaliados.
As IES também podem acessar os checklists em Excel ou Google Planilhas com soma automática, dicas rápidas e recursos para visualizar os resultados das diferentes etapas da jornada.
Íngrid Severino Oliveira, gestora de projetos de TI com ênfase em acessibilidade digital e que contribuiu com a construção do novo portal institucional da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), acredita que o trabalho pode contribuir para mudanças no ambiente acadêmico. “Poder participar deste grupo multidisciplinar e contribuir com o desenvolvimento deste projeto engrandeceu um sentimento interno de que é sim possível impedir que barreiras atitudinais e tecnológicas continuem existindo nas instituições de ensino superior e buscar garantir, através da equidade e autonomia no ambiente acadêmico, que estudantes alcancem o tão sonhado título de graduado”, comemora.
Primeiro grupo de estudos deixa também aprendizados para a Liga
O projeto inaugurou uma nova experiência dentro da Liga WPT. O grupo de acessibilidade digital nas IES foi o primeiro criado para reunir pessoas voluntárias interessadas em estudar coletivamente um assunto e transformar o conhecimento produzido em uma entrega pública.
A construção do material reuniu Carmen Justo, Cristiane Fernandes, Ileidiane Ribeiro, Íngrid Oliveira, Lane Primo e Marcelo Penha, com acompanhamento e orientação de Suzeli Damaceno, coordenadora do Movimento Web para Todos.
“É muito gratificante chegar a esse resultado e perceber o que aconteceu quando criamos um espaço para que conhecimentos e experiências diferentes pudessem circular e se complementar. Meu papel foi criar condições para que o grupo colaborasse e canalizasse todo esse conhecimento para algo útil. O mérito do resultado é das pessoas que se dedicaram ao projeto e construíram juntas esse material com grande potencial de transformação”, conta Suzeli.
Lane Primo também associa o resultado à construção coletiva. “Encerro esse ciclo com a sensação de dever cumprido ao lado de parcerias maravilhosas, o que reafirma que a união é o verdadeiro motor da transformação”, diz.
Próxima etapa leva material para dentro das IES
O grupo concluiu o conteúdo em julho de 2026, após seis versões. O WPT disponibilizou gratuitamente o e-book “Checklist de acessibilidade digital para Instituições de Ensino Superior com foco na jornada de estudantes” em seu site e seguirá reforçando a divulgação em seus perfis nas redes sociais e newsletter. As mais de 200 pessoas que integram a Liga WPT também receberam o conteúdo para ajudar a disseminá-lo em suas redes.
O material também está sendo enviado ao maior número de instituições de ensino superior de diferentes regiões do país. O grupo pretende ainda apresentar o trabalho em congressos, simpósios e em outros eventos acadêmicos.
Para Carmen Justo, o resultado amplia a possibilidade de contribuição iniciada dentro do grupo, afirmando que “o sentimento é o de poder contribuir de forma efetiva para a inclusão de qualquer estudante no ensino superior”.
Ileidiane Ribeiro também relaciona a experiência à transformação que o grupo espera estimular fora dele. “Participar deste grupo de estudos foi marcante porque nos permitiu observar a acessibilidade ‘ganhar vida’ no ambiente universitário. Além de alinhar regras técnicas, o grupo funcionou como um espaço vivo de defesa da inclusão.”
O trabalho iniciado dentro da Liga entra agora em uma nova etapa. Suzeli explica que o conhecimento construído coletivamente chega às instituições com a proposta de ajudá-las a olhar para a experiência digital de estudantes como uma jornada completa e a identificar barreiras que ainda precisam ser eliminadas. “E, claro, esperamos que esse processo leve as IES para a ação”, finaliza.