
A acessibilidade digital nem sempre começa com um plano estruturado, uma norma técnica ou uma estratégia institucional. Às vezes, ela começa com um erro.
Foi assim com a Vania Ribas Ulbricht, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com trajetória consolidada em tecnologia educacional e acessibilidade, e uma das principais líderes do LaMiD – Laboratório de Mídia e Inclusão Digital da UFSC.
“Eu estava me aposentando quando me deparei com um aluno surdo. Na minha ignorância, pensei: ‘está tudo na tela, ele vai conseguir ler e acompanhar’. Mas ele não entendia o português. E nós também não sabíamos Libras. Ele acabou reprovando e a culpa foi nossa, lembra Vania.”
Esse episódio marcou sua vida e foi um dos pontos de virada em sua carreira. A partir dali, a acessibilidade deixou de ser um tema distante e passou a orientar toda a sua atuação, especialmente no campo da pesquisa acadêmica. “Eu fui conhecer esse mundo e é um lugar tão maravilhoso… A gente faz pouca coisa, e o impacto já é enorme. Eu me apaixonei e não saí mais.”
Esse foi um dos pontos que surgiram logo no começo do último encontro com a Liga Voluntária, programa de voluntariado do Movimento Web para Todos. A cada dois meses, o grupo se reúne para debater algum tema relacionado à acessibilidade digital. Dessa vez, foi falado sobre o papel das universidades neste contexto e as novas transformações da web.
Histórias como a da Vania ajudam a entender um ponto importante e ainda pouco debatido. Apesar dos avanços, a acessibilidade digital ainda depende, em muitos casos, da iniciativa individual de quem decide prestar atenção nisso.
No caso da professora Vania, essa escolha se traduz diretamente na forma como ela orienta suas pesquisas. Independentemente da área, a acessibilidade precisa estar presente, virou regra para ela. Mas esse movimento ainda não é institucional. “Não existe incentivo da instituição. O que existe é o professor que puxa esse tema”, lamenta Vania.
Na prática, isso significa que o avanço da acessibilidade dentro das universidades e na formação de profissionais ainda acontece de forma desigual. E isso ajuda a explicar por que esse tópico ainda aparece pouco em cursos como tecnologia, design ou comunicação, mesmo sendo essencial para a construção de experiências digitais mais inclusivas.
O que a academia já produz e o que ainda não chega ao mundo real
Essa agenda dentro do LaMiD vem sendo construída há anos. O laboratório reúne pesquisas que exploram acessibilidade digital sob diferentes perspectivas, especialmente na educação e na experiência da pessoa usuária.
Ao longo do tempo, foi sendo formada uma base consistente de conhecimento, o que a própria professora chama de “massa crítica”. “Hoje o laboratório está mais maduro, com muita pesquisa boa saindo”, comemora. Mas o maior desafio, segundo ela, ainda é fazer com que esse conhecimento circule para além do ambiente acadêmico.
Foi justamente esse incômodo que levou Renan Binda a olhar para os projetos desenvolvidos no laboratório com outra perspectiva. Ele é pesquisador, designer, atuando com experiência da pessoa usuária e acessibilidade digital aplicada a produtos e serviços.
“Tinha muita coisa boa ficando para trás. A gente fazia o protótipo, validava, publicava e parava ali”, explica Renan. A constatação revela um problema maior, que é a distância entre o que é pesquisado e o que, de fato, chega ao mercado e às pessoas.
Quando a pesquisa encontra a prática
A partir dessa percepção, Renan passou a investir em um movimento complementar à pesquisa com o objetivo de transformar conhecimento em soluções aplicáveis. Mas esse caminho não é simples. Depois da pesquisa acadêmica, começa uma nova jornada que envolve modelo de negócio, validação de mercado, distribuição e continuidade.
Ainda assim, iniciativas começam a surgir. Um exemplo é o CADUX (Cartas de Acessibilidade Digital para Experiência de Uso), uma ferramenta desenvolvida pelo Renan que traduz diretrizes técnicas (WCAG integrada à ABNT NBR 17225) em orientações práticas para equipes de design e desenvolvimento.
Segundo Renan, a proposta é aproximar a acessibilidade do processo de criação e não deixá-la para o final. “As cartas funcionam como um tradutor, transformando a complexidade das diretrizes em algo que dá para usar no dia a dia”, explica. Ele recomenda, inclusive, que sejam utilizadas também nos cursos de graduação de Design em atividades pedagógicas.
E o que muda com a web agêntica?
Durante o encontro, outro tema entrou na conversa, a chamada web agêntica. De maneira simplificada, trata-se de uma mudança na forma como nos relacionamos com a web, saindo de um modelo baseado em navegação para outro em que sistemas inteligentes (ou os chamados “agentes de IA”) passam a executar tarefas por nós.
Esse cenário pode representar avanços importantes para a acessibilidade, especialmente ao reduzir barreiras de acesso e interação. Mas Renan traz um alerta importante afirmando que “acreditar que a IA ‘conserta’ uma web malconstruída é uma grande falha estratégica.”
Ou seja, a tecnologia não substitui a acessibilidade. Ao contrário, depende dela. Esse é um tema que ainda está em evolução e será aprofundado em uma próxima matéria aqui no blog do WPT.
Um caminho que precisa ser coletivo
A conversa entre a união da academia com as reais demandas de mercado deixa claro que a acessibilidade digital depende de decisões e de como elas perpassam por diferentes espaços, desde a formação na graduação, passando pela pesquisa até o desenvolvimento de soluções.
Hoje, muitos avanços ainda são sustentados por iniciativas individuais. Mas, para que a acessibilidade deixe de ser exceção e passe a ser regra, esse movimento precisa se tornar coletivo. “Precisa sair do laboratório, chegar ao mercado e, principalmente, fazer parte do cotidiano de quem projeta, desenvolve e comunica no digital”, finaliza Simone Freire, idealizadora do Movimento Web para Todos.