
Por Carla Maria Rodrigues de Souza, Edemar Santos, Fernanda Ribeiro e Isadora Calônico*
Telas sensíveis ao toque, comandos digitais e funções conectadas já fazem parte de muitos eletrodomésticos presentes nas casas brasileiras. A promessa é tornar o uso mais prático e inteligente. Para pessoas com deficiência e idosas, porém, essas novas formas de interação podem representar novas barreiras e até dificultar atividades que antes eram realizadas com mais autonomia.
O problema chama ainda mais atenção quando se considera que o conceito de Desenho Universal, que propõe pensar produtos e ambientes para serem utilizados pelo maior número possível de pessoas, surgiu há 41 anos. O termo foi criado pelo arquiteto norte-americano Ronald Mace em 1985, mas seus princípios ainda estão longe de fazer parte de todos os produtos que chegam ao mercado.
Uma pesquisa realizada em 2025 pela Vision Australia ajuda a dimensionar esse contraste. Entre 627 pessoas cegas ou com baixa visão ouvidas na Austrália e na Nova Zelândia, 52% consideraram os eletrodomésticos mais novos menos acessíveis que os antigos. Apenas 19% perceberam melhora na acessibilidade.
A substituição de controles físicos por superfícies planas e painéis digitais está entre as mudanças que podem criar dificuldades. Sem botões, relevos ou outras referências táteis, por exemplo, uma pessoa cega pode não conseguir identificar onde está determinado comando. Informações apresentadas apenas em uma tela podem se tornar inacessíveis para quem não consegue enxergá-las. Menus complexos, textos pequenos, pouco contraste e comandos que exigem precisão também podem criar barreiras para diferentes perfis.
Para entender como essas mudanças afetam o uso de eletrodomésticos no dia a dia, esta reportagem ouviu pessoas com diversos tipos de deficiência e profissionais das áreas de acessibilidade e design. Os relatos ajudam a identificar barreiras, seus impactos na autonomia e possíveis caminhos para incorporar a acessibilidade desde o desenvolvimento desses produtos.
Diferentes barreiras podem aparecer em um mesmo aparelho
As dificuldades encontradas nos painéis digitais variam conforme as características do produto e as necessidades de cada pessoa. Elas podem estar relacionadas à forma como as informações são apresentadas, aos tipos de controle disponíveis, ao feedback oferecido pelo aparelho e à complexidade da interação.
| Barreira | Como ela aparece na prática | Quem pode encontrar mais dificuldades |
| Falta de referências táteis | Telas planas, sem botões, relevos ou marcações que permitam identificar comandos pelo toque. | Pessoas cegas ou com baixa visão |
| Informações apresentadas por um único canal | Programas, temperatura, tempo, estado do aparelho ou alertas aparecem apenas visualmente ou apenas por som. | Pessoas cegas, com baixa visão ou surdas |
| Feedback insuficiente ou pouco distinguível | A pessoa não sabe se um comando foi registrado ou diferentes funções produzem sons, vibrações ou sinais muito semelhantes. | Pessoas com deficiência visual, cognitiva ou limitações motoras |
| Baixo contraste, textos pequenos e reflexos | Ícones e textos têm pouco contraste, fonte reduzida ou ficam difíceis de perceber em superfícies brilhantes. | Pessoas com baixa visão e pessoas idosas |
| Controles que exigem precisão | Áreas de toque pequenas, gestos como arrastar ou deslizar e comandos muito próximos entre si dificultam a operação. | Pessoas com tremores, limitações motoras ou baixa visão |
| Menus e ícones pouco intuitivos | Muitas etapas, excesso de opções, símbolos difíceis de interpretar e respostas pouco previsíveis tornam a interação mais complexa. | Pessoas com deficiência intelectual ou cognitiva, pessoas idosas e pessoas com pouco letramento digital |
| Falta de alternativas ao touchscreen | O aparelho depende apenas da tela sensível ao toque, sem botões físicos, comandos por voz ou outras formas acessíveis de interação. | Diferentes grupos de pessoas com deficiência |
| Pouca personalização e necessidade de memorização | Não é possível ampliar textos, ajustar contraste, volume ou forma de interação; em alguns casos, a pessoa precisa memorizar posições e sequências de comandos. | Pessoas com baixa visão, deficiência cognitiva, auditiva ou visual |
| Dependência de recursos externos | Funções acessíveis existem apenas por aplicativo, internet ou dispositivo complementar, que também pode apresentar barreiras. | Pessoas com diferentes deficiências e pessoas em situações de baixa conectividade |
| Falta de confirmação em ações importantes | Um toque acidental pode iniciar, cancelar ou alterar uma operação sem aviso ou confirmação adequada. | Pessoas com limitações motoras, cognitivas ou visuais |
Quando uma tarefa cotidiana depende da ajuda de outra pessoa
Micro-ondas, máquinas de lavar, fogões ou cooktops, air fryers e fornos elétricos estão entre os aparelhos citados pelas dez pessoas ouvidas para esta reportagem. Oito afirmaram já ter enfrentado dificuldades no uso de eletrodomésticos.
Entre os problemas relatados estão a dificuldade para identificar comandos e configurar funções, pouco contraste, ausência de referências táteis, falta de comandos por voz e alertas sonoros insuficientes. Nenhuma das pessoas entrevistadas considerou totalmente suficientes os recursos de acessibilidade disponíveis nos aparelhos que utiliza.
Para algumas delas, essas barreiras significam depender da ajuda de alguém para realizar atividades domésticas. Caroline Bruno, que tem deficiência visual, relatou dificuldades para identificar comandos e configurar funções, além da falta de Braille e de comandos por voz. Ela afirmou que frequentemente precisa pedir ajuda para utilizar seus próprios eletrodomésticos.
Mariana Romano, também com deficiência visual, contou que, quando sua mãe comprou um micro-ondas, aprendeu apenas a localização do botão que acionava um minuto de funcionamento. As demais funções acabaram ficando fora de seu alcance porque a interface não permitia identificá-las e utilizá-las com autonomia.
As dificuldades não aparecem somente entre pessoas com deficiência. Laís Carvalho de Oliveira relatou problemas para compreender identificações pouco intuitivas em seu micro-ondas e cafeteira, chegando a precisar pesquisar na web o significado e a função de determinados botões. Para ela, uma interface de um produto de uso cotidiano deveria ser “simples, clara e de fácil compreensão”.
Outro participante descreveu um forno elétrico com função air fryer cujo painel possui controles giratórios muito sensíveis. Um movimento acidental pode alterar a configuração e, como a rotação não oferece referências físicas sobre as opções selecionadas, o controle pode se tornar especialmente difícil para uma pessoa que não enxerga ou que tenha tremores.
Os recursos sugeridos pelas pessoas participantes desta reportagem incluem comandos por voz, botões em relevo, identificação em Braille, maior contraste, alertas sonoros, feedback por vibração, instruções em áudio e aplicativos acessíveis. Mas oferecer uma alternativa digital não resolve necessariamente o problema. Se o aplicativo complementar também tiver barreiras ou se uma função acessível depender exclusivamente de celular ou conexão com a internet, novos impedimentos podem surgir.
Barreiras também podem comprometer a segurança
As dificuldades identificadas nesses relatos aparecem também em um estudo publicado em 2025 na revista Scientific Reports, que investigou a interação de pessoas cegas com diferentes tecnologias presentes em casa e encontrou problemas semelhantes.
Entre os eletrodomésticos analisados estavam máquinas de lavar com interfaces digitais. Participantes relataram dificuldades para alterar e verificar configurações em modelos com telas sensíveis ao toque e, em alguns casos, consideraram aparelhos mais antigos, com controles físicos, mais fáceis de operar.
Para Eliane Capra, doutora em Acessibilidade Web pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), pesquisadora do Núcleo de Acessibilidade e Usabilidade da UNIRIO (NAU) e analista de TI na Dataprev, as barreiras podem atingir não apenas pessoas com deficiência, mas também idosas e com baixo letramento.
Ela própria precisou consultar o manual para utilizar uma air fryer com visor digital e um único botão giratório. Em casa, sua ajudante só conseguiu aprender a operar o aparelho depois de assistir a um vídeo gravado pela Eliane.
Além da autonomia, a pesquisadora chama atenção para a segurança. Ela conta que seu filho certa vez programou o micro-ondas para aquecer uma marmita por 30 minutos em vez de três. Quando percebeu o erro, o aparelho já estava no 26º minuto. “O que a pessoa quer preparar por 30 minutos no micro-ondas?”, questiona.
Situações como essa mostram a importância de interfaces que ajudem a prevenir erros ou permitam identificá-los antes que uma ação potencialmente perigosa prossiga. Confirmações para determinadas operações, informações claras sobre o estado do aparelho e feedbacks que permitam perceber uma configuração incorreta são algumas possibilidades.
Eliane defende que a acessibilidade seja considerada e testada antes do lançamento dos produtos, com a participação de pessoas com diferentes características e necessidades. Para os fabricantes, ela resume três pontos que considera fundamentais: autonomia, segurança e soluções de baixo custo. “Existem soluções simples que facilitam o uso de um eletrodoméstico. Basta ter boa vontade para chegar lá”, afirma.
A pesquisadora também alerta para a ausência de requisitos brasileiros específicos de acessibilidade para esses produtos. Embora existam referências técnicas internacionais sobre o tema, elas não equivalem, por si só, a requisitos obrigatórios no Brasil. A IEC 63008:2020 trata da acessibilidade de controles, portas, tampas, puxadores e displays de eletrodomésticos para pessoas idosas e com deficiência. Já a ISO/TS 21054:2020 apresenta princípios de design acessível para controles de produtos de consumo.
No Brasil, a regulamentação do Inmetro para eletrodomésticos tem como foco principal requisitos de segurança. A Portaria Inmetro nº 148/2022 estabelece critérios para avaliação da conformidade desses produtos com foco na prevenção de acidentes de consumo, mas não estabelece requisitos específicos de acessibilidade.
A diversidade precisa estar prevista desde a concepção do projeto
Para Claudia Teles da Silva, doutora em Educação e professora de Educação Especial no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina (IFSC), parte do problema começa antes mesmo do desenho do painel, ou seja, na falta de expectativa de que pessoas com diferentes tipos de deficiências, lesões ou neurodivergências utilizarão esses aparelhos.
“O produto pode ser usado por uma diversidade de corpos humanos”, lembra. Para ela, profissionais responsáveis pela criação e desenvolvimento precisam considerar as diferentes características e necessidades humanas desde o início do processo.
“Ninguém presume que uma pessoa cega vai cozinhar, ninguém presume que uma pessoa com deficiência intelectual vai programar”, exemplifica. Quando essa diversidade não é prevista, a acessibilidade tende a aparecer apenas posteriormente, como adaptação, em vez de fazer parte do projeto.
Claudia também chama atenção para uma mudança nos eletrodomésticos ao longo das últimas décadas. Aparelhos mais antigos costumavam utilizar botões com diferentes alturas, formatos e cores. Essas características ofereciam referências táteis e visuais que ajudavam a distinguir os comandos sem depender exclusivamente da leitura.
Com a predominância de superfícies planas e painéis digitais, parte dessas referências desapareceu. Isso não significa que interfaces digitais sejam necessariamente menos acessíveis, mas que sua adoção sem outras formas de interação pode criar novas barreiras.
Uma das recomendações da professora é testar os produtos com diferentes perfis de pessoas antes que cheguem ao mercado. O objetivo é verificar, por exemplo, se alguém com cegueira, deficiência intelectual ou limitação motora consegue compreender e operar o aparelho de maneira independente.
Para Claudia, um painel acessível não deveria depender de um único canal de comunicação. Recursos visuais, sonoros e táteis podem atuar de forma complementar para que uma mesma informação possa ser percebida de diferentes maneiras.
O que diz a legislação brasileira
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI), sancionada em 2015, define Desenho Universal como a concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou de projeto específico.
A legislação também estabelece que o Desenho Universal deve ser tomado como regra de caráter geral na concepção e implantação de projetos que tratem do meio físico, transporte, informação e comunicação, inclusive sistemas e tecnologias da informação e comunicação, além de outros serviços, equipamentos e instalações abertos ao público, de uso público ou privado de uso coletivo.
Embora essa determinação não estabeleça requisitos técnicos específicos de acessibilidade para painéis de eletrodomésticos, a própria definição de Desenho Universal presente na LBI inclui expressamente os produtos em seu escopo.
Os relatos e estudos reunidos nesta reportagem mostram que incorporar novas tecnologias a um produto não significa, necessariamente, torná-lo mais fácil de usar por diferentes perfis de pessoas. Uma inovação pode criar novas barreiras quando uma interface elimina referências táteis, depende exclusivamente da visão ou exige que alguém memorize sequências de comandos.
O desafio, portanto, não está apenas na disponibilidade de recursos tecnológicos. Está também em considerar a diversidade humana desde o início do desenvolvimento, testar os produtos com pessoas com diferentes características e necessidades, e oferecer mais de uma maneira de perceber informações e realizar tarefas.
Acessibilidade em eletrodomésticos pode significar conseguir preparar uma refeição, lavar uma roupa ou configurar um aparelho com segurança e autonomia, sem depender da ajuda de outra pessoa.
Saiba mais
Desenho Universal
O Desenho Universal propõe que produtos, ambientes, programas e serviços sejam concebidos para serem utilizados pelo maior número possível de pessoas, independentemente de idade, deficiência ou outras características.
Em vez de desenvolver uma solução para um público considerado padrão e fazer adaptações posteriormente, a proposta é considerar a diversidade humana desde o início do projeto.
Saiba mais sobre os sete princípios do Desenho Universal nesta página do The RL Mace Universal Design Institute (está em inglês, mas é possível traduzi-la diretamente no navegador).
E o que o WCAG tem a ver com isso?
As Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web (WCAG, na sigla em inglês) foram desenvolvidas pelo World Wide Web Consortium (W3C) para orientar a acessibilidade de conteúdos digitais na web. Portanto, não são uma norma para avaliar a acessibilidade de eletrodomésticos ou de seus painéis físicos.
Ainda assim, os quatro princípios que organizam a WCAG (perceptível, operável, compreensível e robusto) ajudam a refletir sobre algumas barreiras encontradas nas interfaces digitais desses produtos.
Uma informação apresentada apenas visualmente, por exemplo, pode não ser perceptível para uma pessoa cega. Um controle que exige muita precisão pode não ser operável por quem tem determinadas deficiências motoras. Ícones pouco claros e sequências complexas podem tornar uma função difícil de compreender para muita gente.
Essa aproximação não significa aplicar os critérios da WCAG diretamente aos eletrodomésticos, mas mostra como princípios já conhecidos no desenvolvimento de experiências digitais acessíveis podem contribuir para pensar interfaces que considerem diferentes formas de perceber, compreender e interagir.
Você pode conhecer mais sobre essas diretrizes e sua aplicação no contexto brasileiro na ABNT NBR 17225:2025 — Acessibilidade em conteúdo e aplicações web — Requisitos, que tem como base a WCAG 2.2.
* Reportagem produzida por Carla Maria Rodrigues de Souza, Edemar Santos, Fernanda Ribeiro e Isadora Calônico, que fazem parte da Liga Voluntária do Movimento Web para Todos.