A11y.md: projeto usa IA para prevenir barreiras digitais


Ilustração de um notebook com uma tela dividida entre linhas de código e a prévia de uma página web com campo de busca e botão “Pesquisar”. À esquerda, um ícone com as letras “IA”. À direita, ícones de acessibilidade representam uma pessoa de braços abertos, teclado, áudio e contraste.

A inteligência artificial (IA) já é utilizada para criar sites, aplicativos e outros produtos digitais. Mas será que as interfaces geradas por essas ferramentas consideram as necessidades de pessoas com diferentes tipos de deficiência? Foi pensando em como enfrentar esse desafio que o designer Felipe Carriço desenvolveu o A11y.md, um projeto de código aberto que busca incorporar boas práticas de acessibilidade ao processo de desenvolvimento de interfaces com apoio da IA.

A proposta é ajudar a prevenir barreiras de acessibilidade desde a criação do código, reduzindo a dependência de correções realizadas apenas nas etapas finais dos projetos. Para isso, o A11y.md reúne orientações baseadas em diretrizes e normas de acessibilidade que podem ser consultadas por agentes de inteligência artificial durante suas tarefas.

Disponibilizado gratuitamente, o projeto pode ser utilizado por profissionais e equipes de desenvolvimento e está aberto a contribuições da comunidade. Carriço ressalta que, embora a IA possa apoiar a aplicação de critérios técnicos, a avaliação humana continua indispensável para verificar se uma interface realmente oferece uma experiência acessível.

Como o A11y.md funciona na prática

O A11y.md não é uma ferramenta de IA independente nem um agente que desenvolve interfaces por conta própria. Trata-se de um conjunto organizado de arquivos com instruções e orientações de acessibilidade que podem ser incorporadas ao ambiente de trabalho de agentes de IA utilizados no desenvolvimento de software. Funciona de maneira semelhante a um conjunto de prompts especializados, que o agente consulta conforme a tarefa.

Na prática, a pessoa responsável pelo projeto configura a ferramenta para consultar o protocolo durante a geração ou revisão do código. Assim, ao criar um botão, um formulário ou uma janela de diálogo, por exemplo, o agente pode recorrer às orientações correspondentes para considerar requisitos de acessibilidade desde o início.

Um exemplo é a criação de botões. Uma ferramenta de IA pode gerar um elemento que visualmente se parece com um botão, mas que não foi programado de maneira adequada para funcionar com o teclado ou ser identificado corretamente por leitores de tela. As orientações do A11y.md ajudam o agente a utilizar os elementos e atributos apropriados, reduzindo o risco de criar essas barreiras.

O protocolo também pode ser utilizado na análise de códigos já existentes, ajudando a identificar possíveis problemas e orientar melhorias. Além disso, prevê o registro de decisões, exceções e informações que auxiliam no acompanhamento das questões de acessibilidade ao longo do desenvolvimento.

A configuração depende da ferramenta utilizada, mas o processo inicial é relativamente simples. No site oficial do A11y.md, há instruções para começar a utilizá-lo em diferentes ambientes de desenvolvimento com IA, além de orientações para quem não sabe programar.

Possibilidades e limites do uso da IA na acessibilidade

Uma das principais contribuições do A11y.md é permitir que orientações de acessibilidade sejam consideradas durante o desenvolvimento de interfaces digitais, em vez de depender exclusivamente de avaliações e correções posteriores. Isso pode ajudar equipes a prevenir problemas recorrentes e tornar a aplicação de boas práticas mais consistente.

O projeto também busca facilitar o acesso a referências técnicas. Além das Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web (WCAG), o protocolo contempla orientações relacionadas a diferentes normas e contextos, incluindo a ABNT NBR 17225:2025, principal norma brasileira de acessibilidade em conteúdo e aplicações web.

Outra possibilidade é utilizar os registros gerados pelo protocolo para acompanhar a evolução da acessibilidade nos projetos e apoiar a tomada de decisões pelas equipes de desenvolvimento.

Apesar dessas possibilidades, Carriço destaca que o A11y.md não garante, por si só, a acessibilidade de um produto digital. A qualidade dos resultados depende, entre outros fatores, da ferramenta de IA utilizada, das orientações efetivamente aplicadas e das características de cada projeto.

Por isso, avaliações conduzidas por profissionais de acessibilidade e testes com pessoas com diferentes tipos de deficiência continuam essenciais. Afinal, atender a critérios técnicos não significa necessariamente oferecer uma experiência de uso acessível para todas as pessoas.

Como surgiu o A11y.md

A ideia do A11y.md nasceu de uma inquietação do designer após participar de um debate sobre inteligência artificial e acessibilidade no The Developers Conference (TDC), evento voltado à comunidade de tecnologia. Segundo ele, o debate estava muito concentrado na conformidade com normas, nos riscos de penalizações e na possibilidade de a IA substituir profissionais especialistas em acessibilidade.

Ele começou, então, a pensar em como utilizar a tecnologia para incorporar boas práticas de acessibilidade desde as primeiras etapas do desenvolvimento, evitando que os problemas fossem identificados somente depois que as interfaces estivessem prontas.

Com mais de 15 anos de experiência em design de produtos e serviços digitais, Carriço já atuou em empresas de diferentes portes e segmentos. Atualmente, é coordenador de UX Design e AI Builder na Sem Parar, além de professor, mentor e palestrante. Ele também tem daltonismo e, durante sua participação na 27ª reunião da Liga Voluntária do WPT, fez questão de esclarecer que não se considera especialista em acessibilidade.

A inspiração técnica para desenvolver o protocolo veio do CLAUDE.md, arquivo utilizado para fornecer instruções persistentes ao Claude Code, ferramenta de inteligência artificial voltada à programação. Carriço percebeu que poderia aproveitar essa lógica para criar um conjunto de orientações específicas sobre acessibilidade, disponível para consulta durante a geração de código.

Assim nasceu o A11y.md, disponibilizado publicamente no GitHub para que outras pessoas possam utilizá-lo, testá-lo e contribuir para seu aprimoramento. O projeto também foi selecionado para receber apoio da iniciativa Claude for Open Source, da Anthropic, empresa responsável pelo Claude, por meio da concessão de créditos para utilização de suas ferramentas de IA.

Um projeto aberto à colaboração

O A11y.md continua em desenvolvimento e depende também da participação da comunidade para evoluir. Por ser um projeto de código aberto, profissionais de desenvolvimento, especialistas em acessibilidade e outras pessoas interessadas podem contribuir com sugestões, identificar lacunas nas orientações e propor melhorias.

Durante sua participação na reunião da Liga, Carriço destacou especialmente a necessidade de envolver quem utiliza tecnologia assistiva na avaliação do protocolo. A intenção é reunir contribuições baseadas em experiências reais de uso, ajudando a identificar problemas que podem passar despercebidos nas verificações automatizadas.

Para ele, a expectativa é que, no futuro, a acessibilidade esteja tão incorporada à criação de produtos digitais que ferramentas como o A11y.md não precisem mais existir. “Meu sonho é que meu projeto num futuro próximo seja desnecessário. E eu quero chegar lá com a ajuda de vocês.”

Quem quiser conhecer o protocolo, experimentar suas funcionalidades ou contribuir para seu desenvolvimento pode acessar o site oficial do A11y.md, que reúne orientações de uso e informações sobre o projeto.


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