Audiodescrição vai muito além de dizer o que aparece em uma imagem


Foto de três pessoas em vista superior conversam sentadas ao redor de uma mesa redonda. À esquerda, um jovem em cadeira de rodas motorizada. Ao centro, uma mulher com seu cão-guia caramelo deitado ao chão. À direita, outra mulher mexe em um celular.

A audiodescrição é uma técnica de tradução audiovisual que parece simples, mas não é. Não basta olhar para uma imagem e descrever tudo o que se vê. Transformar o conteúdo visual em palavras envolve escolhas, técnica e, principalmente, uma compreensão sobre o que é relevante para quem vai receber aquela informação.

Foi a partir de uma situação que Luciane Molina percebeu como essas escolhas podem mudar completamente a forma como uma pessoa constrói mentalmente um espaço. Moradora de Guaratinguetá e frequentadora da Basílica de Nossa Senhora Aparecida, ela participou da consultoria de uma audiodescrição do local e se deparou com uma descrição que, embora apresentasse diversos elementos da Basílica, organizava as informações de uma maneira diferente daquela que ela conhecia.

A descrição começava pela parede, passava pela janela, pelo piso, pelo vitral e pelas imagens e só então chegava ao nicho onde está Nossa Senhora Aparecida. “Eu falei: gente, mas esse lugar que eu recebi pela audiodescrição não é o mesmo. Está completamente diferente”, relatou.

O exemplo foi compartilhado durante uma reunião do Se Liga na Prática, iniciativa da Liga Voluntária do Movimento Web para Todos voltada ao compartilhamento de conhecimentos e experiências práticas entre as pessoas participantes. No encontro, Luciane e Doriane Vasconcelos, ambas cegas e profissionais que atuam com audiodescrição, discutiram como contexto, relevância e técnica influenciam a construção de uma descrição acessível.

Uma relação construída por meio das palavras

A relação de Luciane com a audiodescrição começou muito antes de ela conhecer a técnica profissionalmente. Nascida com baixa visão, aprendeu desde a infância a construir referências sobre o mundo a partir do que as pessoas contavam e descreviam para ela.

Nas décadas de 1980 e 1990, ainda não conhecia o termo audiodescrição. Anos depois, ao descobrir que aquela prática poderia ser uma profissão e que existia uma técnica de tradução intersemiótica, formalizada por diretrizes e normativas, encontrou um novo caminho.

“Isso foi encantador, de verdade. Transformou a minha vida”, contou Luciane. Foi a partir dessas experiências que ela se tornou consultora em audiodescrição. Para ela, essa trajetória também ajuda a entender que a audiodescrição não consiste simplesmente em dizer tudo o que está diante dos olhos. O desafio está em selecionar e organizar as informações para que a pessoa consiga construir referências sobre aquilo que está sendo apresentado.

Doriane também compartilhou como a audiodescrição entrou em sua trajetória profissional. Depois de conhecer o recurso durante a pandemia e fazer um curso com Lígia Ribeiro e a própria Luciane, começou a estudar e a praticar a técnica em suas redes sociais. Hoje, atua com audiodescrição nos contextos empresarial e cultural.

“Como a Lu falou, a audiodescrição, para quem não conhece, é um recurso de acessibilidade, uma tradução do visual para o verbal e o objetivo é justamente fazer com que a ideia da imagem seja projetada na mente”, contou Doriane.

Descrever é fazer escolhas

Foi justamente o que aconteceu no caso da Basílica. Ao analisar a descrição, Luciane percebeu que o problema estava na organização espacial das informações. Elementos que eram apresentados como secundários apareciam antes daquele que ocupava o lugar central.

“Primeiro, traríamos o que é central naquele lugar, que é o nicho. Depois, apresentaríamos as outras informações para que a pessoa pudesse se situar naquele espaço e pertencer a ele”, explicou.

A situação mostra por que não existe uma fórmula única para organizar uma audiodescrição. Nem sempre é preciso seguir uma ordem fixa, como descrever de cima para baixo, da esquerda para a direita ou da frente para trás. A escolha depende da imagem, do contexto, da relação entre os elementos e do que é mais relevante para aquela situação. 

Doriane destaca que uma audiodescrição precisa considerar também o tipo de imagem, seu conteúdo e o ambiente em que os elementos estão inseridos. Em uma descrição de imagem para a web, por exemplo, o recomendado é dizer primeiro se é uma fotografia, ilustração ou outro tipo de representação para ajudar a pessoa a construir uma referência inicial. 

A diferença está justamente entre fazer uma lista de elementos e construir uma descrição que permita compreender a imagem. Uma fotografia de uma pessoa diante de um prédio, por exemplo, pode trazer informações sobre quem aparece, o que está fazendo, onde está e qual relação existe entre esses elementos. O objetivo não é registrar tudo, mas organizar aquilo que ajuda a compreender a cena.

E onde entra a inteligência artificial?

A conversa também chegou à inteligência artificial (IA), que já é capaz de identificar e descrever elementos presentes em imagens. Para Luciane e Doriane, porém, reconhecer o que aparece não é suficiente para fazer uma audiodescrição profissional.

Um caso apresentado durante o encontro mostra essa diferença. Uma imagem poderia ser descrita por uma ferramenta de IA como “um homem de terno ao lado de uma mulher diante de um painel”. Sem contexto, a descrição pode até parecer correta. Mas, naquele caso, tratava-se de um diretor entregando um certificado à primeira mulher com deficiência visual a concluir um curso de graduação naquela universidade. O contexto muda completamente o sentido da imagem.

“O profissional de audiodescrição precisa trabalhar com a imagem, com o contexto, com o objetivo comunicacional, com as informações fornecidas pela própria imagem, com o conhecimento e a experiência que tem, com os princípios técnicos e com o público-alvo”, explicou Luciane.

Doriane também chamou atenção para a dificuldade de a inteligência artificial compreender a relevância das informações dentro de cada contexto. Para ela, uma ferramenta pode identificar diferentes elementos de uma imagem, mas isso não significa que consiga compreender quais deles são realmente importantes para a comunicação.

Isso não significa que a inteligência artificial não possa ser usada como apoio. As próprias profissionais relataram situações em que ferramentas de IA podem ajudar no cotidiano, como na leitura de uma embalagem ou na identificação de elementos ao redor. Para uma audiodescrição profissional, no entanto, o conteúdo gerado precisa passar por revisão humana e seguir critérios técnicos.

Acessibilidade pode começar antes da demanda

Outro ponto debatido foi que a audiodescrição não resolve sozinha todas as barreiras de acessibilidade. Em uma peça de teatro, por exemplo, é preciso pensar também no acesso ao espaço, à compra do ingresso, à reserva do assento e ao percurso até o local. No ambiente digital, de nada adianta uma imagem ter uma descrição adequada se a pessoa não consegue navegar pelo site para chegar até ela.

A mesma lógica vale para apresentações, aulas e conteúdos publicados nas redes sociais. Nem sempre é preciso esperar alguém com deficiência pedir uma descrição para começar a incorporar práticas acessíveis.

Para Luciane, isso também passa pela participação das pessoas com deficiência nos espaços cotidianos. “Será que elas só podem pertencer aos espaços que são planejados para elas?”, questionou.

A proposta compartilhada durante o Se Liga na Prática é que a audiodescrição também possa ser exercitada no cotidiano, nas falas e nas situações em que imagens e elementos visuais fazem parte da comunicação. Não se trata de substituir o trabalho profissional, mas de ampliar a percepção sobre como diferentes pessoas acessam uma mesma informação.

Durante o encontro, Luciane também contou a história de uma professora de dança que dava aulas online para alunas cegas. Para ensinar os movimentos, ela passou a descrevê-los verbalmente, detalhando posições e gestos de uma maneira que pudesse ser compreendida por quem não enxergava.

A estratégia, criada inicialmente para garantir a participação das alunas cegas, acabou beneficiando também as demais meninas da turma. As descrições mais detalhadas ajudaram outras participantes a compreender melhor os movimentos e acompanhar as atividades.

O caso da professora de dança mostra como uma prática pensada para garantir a participação de pessoas cegas também pode melhorar a experiência de muito mais gente. Para Luciane, esse é um dos motivos para incorporar a audiodescrição ao cotidiano, sem esperar que alguém precise solicitar o recurso. “Então, pratique a audiodescrição na sua fala, no seu cotidiano. Vai ser perfeita logo de início? Não vai. Mas vai ajudar. E, quanto mais você praticar, melhor vai ficar”, concluiu Luciane.


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