
Por Cristiane Ikenaga Fernandes, Muriel Xavier e Thaís Castro*
A inteligência artificial (IA), especialmente a IA generativa, já faz parte de várias etapas do desenvolvimento de sites e aplicativos. Com poucos comandos, ferramentas conseguem criar layouts, escrever trechos de código, sugerir estruturas de páginas, produzir textos e até apontar possíveis erros.
A velocidade é impressionante. Mas será que um site criado com ajuda de inteligência artificial está, de fato, pronto para ser publicado?
Esse é um dos principais desafios trazidos pela popularização dessas ferramentas. A facilidade para gerar uma aplicação pode dar a impressão de que basta pedir para a IA “criar um site acessível” para que o resultado esteja adequado. Na prática, não é tão simples assim.
“A IA é uma realidade que não pode ser ignorada. A forma como produzimos conteúdo e desenvolvemos aplicações digitais está mudando e deve mudar ainda mais nos próximos anos”, afirma Reinaldo Ferraz, especialista em acessibilidade digital no NIC.br e um dos embaixadores do Movimento Web para Todos.
Para ele, isso não significa abandonar as ferramentas de inteligência artificial, mas aprender a utilizá-las de maneira consciente, especialmente quando estão envolvidas questões críticas como segurança, proteção de dados e acessibilidade.
“Verificar a acessibilidade da aplicação antes de publicar algo gerado por código de IA é essencial para evitar barreiras a pessoas com deficiência e problemas jurídicos”, ressalta.
De que forma a IA está sendo usada para criar sites?
A inteligência artificial pode participar de praticamente todo o processo de desenvolvimento de um site.
Ela pode ajudar a transformar uma descrição em linguagem natural em requisitos de software, sugerir uma arquitetura de informação ou criar um primeiro fluxo de navegação. Também consegue gerar propostas de layout, componentes de interface e códigos em tecnologias como HTML, CSS, JavaScript e React.
Além disso, pode apoiar profissionais na identificação de erros, explicar trechos de código, criar roteiros de testes, produzir documentação e sugerir melhorias de desempenho e de acessibilidade.
Ou seja, a IA pode ser uma ferramenta importante para acelerar o desenvolvimento. O problema começa quando a velocidade passa a ser confundida com qualidade.
Quando o site parece pronto, mas ainda não está
Um dos grandes atrativos da IA generativa é justamente a rapidez.
Ferramentas de assistência ao desenvolvimento podem ajudar profissionais a prototipar mais rapidamente, experimentar soluções e lidar com tarefas repetitivas. Pesquisas do GitHub com times de desenvolvimento também apontam ganhos de produtividade associados ao uso de ferramentas como o GitHub Copilot.
Mas produtividade não significa, necessariamente, qualidade, segurança ou acessibilidade.
Um código gerado por IA pode conter erros ou vulnerabilidades. Também pode dificultar a manutenção futura do sistema, afetar o desempenho ou expor informações confidenciais quando dados internos são enviados a ferramentas públicas.
Há ainda questões relacionadas à propriedade intelectual e ao licenciamento de código.
Outro risco é mais sutil: o que poderíamos chamar de um “falso sentimento de conclusão”. Como a inteligência artificial consegue entregar rapidamente uma interface visualmente pronta, pode surgir a sensação de que o trabalho já terminou. O site está no ar, funciona aparentemente bem e, portanto, parece concluído.
Mas o que existe por trás dessa interface?
Pode faltar monitoramento, otimização contínua, estratégia de acessibilidade, revisão de segurança e até mesmo elementos básicos de uma operação digital bem estruturada.
Publicar um site não significa concluir o projeto. É apenas o começo de um processo de avaliação, correção e melhoria.
E onde entra a acessibilidade?
É justamente nesse ponto que a discussão sobre inteligência artificial e o desenvolvimento de sites torna-se ainda mais importante.
Um site acessível precisa permitir que pessoas com diferentes características, deficiências e formas de interação naveguem e realizem suas tarefas com autonomia e segurança.
A inteligência artificial pode contribuir para isso. Uma ferramenta pode, por exemplo, sugerir textos alternativos para imagens, identificar problemas de estrutura ou apontar possíveis barreiras.
Mas isso não significa que um site produzido por IA seja automaticamente acessível.
É o que mostram os relatos reunidos neste artigo. Estudantes, profissionais de design e especialistas em acessibilidade digital, incluindo uma pessoa com deficiência visual, reconhecem o potencial dessas ferramentas, mas também destacam a necessidade de supervisão humana.
A IA pode ajudar a criar soluções mais acessíveis e apoiar o cumprimento de diretrizes como a WCAG e a ABNT NBR 17225. No entanto, alguém precisa avaliar se o que foi produzido realmente funciona para as pessoas que vão utilizar o site.
“Problemas graves de acessibilidade já ocorrem apenas por não haver pessoas com deficiência nas equipes de design. Não contar com a validação do que é gerado por IA pode criar muitas mais barreiras à acessibilidade”, aponta em entrevista uma estudante e profissional de design.
Uma usuária com deficiência visual e muita habilidade com leitores de tela relatou que ela e outras pessoas cegas não têm percebido uma melhora significativa na acessibilidade dos sites que utilizam. Na avaliação dela, parte desse problema só poderá ser enfrentada quando houver pessoas com conhecimento em acessibilidade digital para ajudar a ensinar e treinar o uso de ferramentas de inteligência artificial.
Um comando não transforma um site em acessível
Essa percepção também aparece em pesquisas acadêmicas.
Um estudo apresentado na conferência ASSETS 2025 avaliou seis sites inteiramente criados por inteligência artificial e identificou 308 barreiras graves de acessibilidade. Entre os problemas encontrados estavam o baixo contraste de cores, a ausência ou a associação inadequada de rótulos em formulários e estruturas de página pouco claras.
Também foram identificadas falhas relacionadas à acessibilidade cognitiva.
O resultado mostra por que um simples comando, como “crie um site acessível”, não é suficiente para garantir que a aplicação atenda aos critérios de acessibilidade.
Além dos próprios limites das ferramentas de IA, há outro fator importante: os requisitos e contextos de acessibilidade podem variar conforme o país e as normas adotadas localmente.
Por isso, testes automatizados são importantes, mas não bastam. É necessário combinar ferramentas, avaliação humana e, sempre que possível, testes com pessoas com deficiência.
O que a norma brasileira estabelece?
No Brasil, a ABNT NBR 17225:2025 estabelece requisitos e recomendações para acessibilidade em conteúdo e aplicações web e tem como referência as diretrizes WCAG 2.2 do World Wide Web Consortium (W3C).
Na prática, isso significa que desenvolver um site, com ou sem inteligência artificial, exige atenção a diferentes aspectos da experiência digital desde o início do projeto.
Um deles é a navegação por teclado. Pessoas que não utilizam mouse precisam conseguir acessar e operar os recursos do site, com foco visível e uma sequência de navegação lógica.
Também é necessário cuidar das imagens. Conteúdos informativos precisam de textos alternativos adequados, enquanto imagens meramente decorativas devem ser ignoradas pelas tecnologias assistivas.
A estrutura dos títulos e subtítulos também faz diferença. O uso correto dos elementos HTML ajuda tecnologias assistivas, como leitores de tela, a compreender a estrutura da página.
Nos formulários, cada campo precisa ter um rótulo claro e estar corretamente associado ao elemento correspondente.
O contraste de cores é outro ponto fundamental. Textos normais precisam apresentar relação de contraste mínima de 4,5:1 com o fundo, enquanto textos grandes precisam atingir pelo menos 3:1. Além disso, a cor não pode ser o único recurso utilizado para transmitir uma informação.
Há ainda questões relacionadas ao zoom e à adaptação do conteúdo. O site não deve impedir o zoom do navegador e precisa se comportar adequadamente em diferentes tamanhos de tela, sem perda de informação ou necessidade de rolagem horizontal e vertical simultaneamente.
Esses cuidados não são tarefas que devem ser deixadas para o final do projeto. Eles precisam fazer parte da construção desde o início.
A acessibilidade também precisa ser testada por pessoas
Para Reinaldo Ferraz, a preocupação com acessibilidade não deve terminar depois que um site é publicado.
Quando uma aplicação apresenta barreiras, é importante que o problema seja formalmente comunicado para que possa ser corrigido.
“A falta de acessibilidade pode ser reportada por diversos canais, que vão do Ministério Público a órgãos de defesa do consumidor”, afirma.
Segundo ele, é importante criar o hábito de reclamar quando um serviço digital apresenta barreiras.
“No exterior, grandes empresas já foram acionadas na justiça por falta de acessibilidade, pois os consumidores conhecem seus direitos. Aqui também deveríamos fazer o mesmo, já que a Lei Brasileira de Inclusão protege a pessoa com deficiência no acesso.”
Esse processo de fiscalização também ajuda a mostrar que acessibilidade não é apenas uma questão técnica. Ela está diretamente relacionada ao direito de acessar serviços, informações e oportunidades no ambiente digital.
Um site acessível para pessoas também pode ser melhor para agentes de IA
Existe ainda outra transformação em curso.
No futuro, muitos sites não serão acessados apenas por pessoas. Agentes de inteligência artificial também poderão navegar por páginas, localizar informações e realizar tarefas em nome de alguém.
Nesse cenário, há uma curiosa aproximação entre a acessibilidade humana e os sistemas de IA.
Agentes utilizam estruturas como o DOM e a árvore de acessibilidade do navegador para compreender uma página. Código semântico, rótulos corretamente associados e estruturas estáveis podem facilitar tanto a navegação de pessoas que utilizam tecnologias assistivas quanto a interpretação por agentes inteligentes.
Ou seja, práticas que tornam um site melhor para pessoas também podem contribuir para que ele seja melhor compreendido por máquinas.
Para Reinaldo Ferraz, essa discussão faz parte de uma corrida global para descobrir como a IA pode beneficiar mais pessoas de maneira segura.
Nesse contexto, ele também chama a atenção para os debates em torno da próxima versão das diretrizes de acessibilidade. O rascunho da WCAG 3 contempla discussões relacionadas à inteligência artificial e à acessibilidade, incluindo a importância de os conjuntos de dados utilizados no treinamento de IA também representarem pessoas com deficiência.
Profissionais de desenvolvimento deixam de escrever código?
O trabalho de desenvolvimento tende a mudar com a evolução das ferramentas de IA. Isso não significa, necessariamente, o desaparecimento da profissão.
Em vez de gastar tanto tempo escrevendo manualmente trechos repetitivos de código, profissionais passam a dedicar mais atenção à arquitetura, à tomada de decisões, à revisão e à validação daquilo que foi produzido.
É preciso definir os requisitos do projeto, avaliar a arquitetura dos sistemas, revisar o código, testar questões relacionadas à segurança e garantir que a aplicação esteja de acordo com as normas de acessibilidade.
Nesse cenário, conhecimento técnico, pensamento crítico e capacidade de avaliar resultados se tornam ainda mais importantes.
A inteligência artificial pode gerar uma primeira versão rapidamente. Mas cabe a quem desenvolve verificar se aquela solução realmente resolve o problema, atende às necessidades do público e funciona de forma segura e acessível.
A IA pode acelerar. A responsabilidade continua sendo humana
A inteligência artificial já está mudando a maneira como sites e aplicativos são planejados, desenvolvidos e publicados.
Seu potencial para acelerar processos e reduzir o trabalho repetitivo é grande. Mas velocidade não pode ser confundida com qualidade e muito menos com acessibilidade.
Um site visualmente pronto pode ainda apresentar barreiras importantes. Um código que funciona pode conter problemas de segurança. Uma interface que parece simples pode ser difícil de utilizar com uma tecnologia assistiva.
Por isso, o uso responsável da IA passa por revisão de código, testes, segurança, proteção de dados, governança e, principalmente, validação da experiência real das pessoas.
A inteligência artificial pode ajudar a construir sites melhores. Mas criar uma web verdadeiramente acessível continua exigindo conhecimento, pensamento crítico e participação humana, inclusive de pessoas com deficiência.
*Reportagem produzida por Cristiane Ikenaga Fernandes, Muriel Xavier e Thaís Castro, que fazem parte da Liga Voluntária do Movimento Web para Todos.
Referências
ABNT NBR 17225:2025 — Acessibilidade em conteúdo e aplicações web: requisitos. Associação Brasileira de Normas Técnicas. Rio de Janeiro: ABNT, 2025.
NIC.br; Secretaria de Governo Digital (MGI); Ministério da Saúde; Movimento Web para Todos. Guia de Boas Práticas para Acessibilidade Digital. São Paulo: NIC.br, 2023.
GITHUB. Research: How GitHub Copilot helps improve developer productivity. GitHub Blog, 2023.
GITHUB. Research: Quantifying GitHub Copilot’s impact on developer productivity and happiness. GitHub Blog, 2023.
JOURNAL OF SYSTEMS AND SOFTWARE. An empirical study of AI techniques in mobile applications. v. 219, jan. 2025.
PANCHANADIKAR, Ruchi; BHOSEKAR, Mitali Shrikant; DIXON, Emma. Can Generative AI Create Accessible Websites? Proceedings of the 27th International ACM SIGACCESS Conference on Computers and Accessibility (ASSETS ’25), 2025.
WORLD WIDE WEB CONSORTIUM (W3C). Web Content Accessibility Guidelines (WCAG) 2.2. W3C Recommendation, 2023.
WORLD WIDE WEB CONSORTIUM (W3C) Brasil. Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web (WCAG) 2.2 — tradução para português do Brasil. São Paulo: W3C Brasil, 2023.
WORLD WIDE WEB CONSORTIUM (W3C). What’s New in WCAG 2.2. W3C, 2023.