Gestão de projetos: guia para incluir acessibilidade digital em todas as etapas


Ilustração de três pessoas, incluindo uma em cadeira de rodas, que analisam dados em uma tela grande com gráficos.

A transformação digital trouxe ferramentas sofisticadas que prometem agilidade, mas a acessibilidade ainda é um ponto crítico que frequentemente fica “fora do radar” das equipes de projetos. 

Ela deve permear todo o ecossistema de gestão e não ser considerada apenas como um atributo do produto final. Afinal, de nada adianta um site ou aplicativo acessível se o processo para construí-lo exclui profissionais com deficiência devido a fluxos de trabalho cheios de barreiras de acesso.

Esta reportagem explora como a gestão de projetos pode ser o motor da inclusão, abordando desde a defesa estratégica junto à liderança até a organização prática de arquivos e ferramentas, garantindo que o processo seja tão inclusivo quanto o resultado esperado.

Valor de negócio versus cronograma

Quem atua na gestão de projetos frequentemente equilibra cronogramas apertados e a necessidade de alta performance. Nesse ritmo, a acessibilidade costuma ser tratada como um “ajuste fino” para o fim do projeto, o que é um erro estratégico e pode custar caro.

Para convencer a liderança, o foco deve mudar do assistencialismo para o valor de negócio por meio do conceito já difundido de Accessibility by Design (acessibilidade desde o planejamento).

Trabalhe com a “Regra de Dez da Qualidade”. Se identificada no design, uma correção leva minutos. Após o código pronto, exige horas de refatoração (reescrita de código para melhorar sua estrutura). Se chegar à pessoa usuária, o custo escala para áreas jurídicas e de relações públicas. O custo de correção aumenta exponencialmente a cada etapa.

No digital, projetar para pessoas com deficiência resulta em código mais limpo, SEO (otimização para motores de busca) robusto e usabilidade ainda mais intuitiva e sem barreiras.

Organize a casa com ferramentas e processos inclusivos

Uma vez estabelecida a estratégia, é preciso olhar para o dia a dia. Não faz sentido exigir um código acessível se as ferramentas da equipe criarem barreiras internas.

Dessa forma, escolha com cuidado e critério as ferramentas que vai utilizar. Ao configurar plataformas como Jira, Trello ou Asana, por exemplo, a pergunta mais importante é: “Minha equipe inteira consegue usar isso?”.

Para garantir que a escolha do software se traduza em um ambiente de trabalho funcional e produtivo, a pessoa na posição de gestão deve se atentar a pontos técnicos fundamentais que eliminam gargalos na colaboração diária, como:

  • Operação por teclado: ações principais, como mover tarefas e comentar, devem ser possíveis sem o uso do mouse.
  • Informação além da cor: use etiquetas textuais (ex: “Crítico”) em vez de apenas cores, que podem ser indistinguíveis para daltônicos.
  • Hierarquia de informação: use cabeçalhos (H1, H2, H3) em documentos. Isso permite que pessoas que utilizam leitores de tela entendam a estrutura do texto rapidamente.

Capriche na organização de arquivos digitais 

A organização de arquivos é o mapa do projeto. Se for caótica, a acessibilidade falha no primeiro clique. Seguem algumas dicas simples e que ajudam na produtividade do time diverso:

  • Nomenclatura semântica: substitua nomes confusos por padrões estruturados (Data + Nome + Versão), permitindo o entendimento do conteúdo antes mesmo de abrir o arquivo.
  • Links descritivos: evite o “clique aqui”. O texto do link deve descrever o destino, como “[Acesse o cronograma de novembro]”.
  • Planilhas: utilize cabeçalhos claros e evite mesclar células, pois confunde a ordem de leitura de softwares assistivos.

Gestão para mentes diversas

Na gestão de projetos, a maneira como a informação é estruturada e distribuída impacta diretamente a acessibilidade cognitiva. Uma organização clara, previsível e livre de ruídos funciona como um suporte essencial para profissionais neurodivergentes (como pessoas com TDAH, autismo ou dislexia) e também para qualquer pessoa que esteja enfrentando altos níveis de estresse ou fadiga mental.

Líderes de projetos atuam como um “filtro de clareza”, e pequenas mudanças no fluxo de trabalho podem reduzir drasticamente a carga mental da equipe, como:

  • Previsibilidade e redução da “paralisia de análise”: padronizar a nomenclatura de arquivos e a hierarquia de pastas permite que a pessoa saiba exatamente onde encontrar o que precisa. Isso economiza uma energia mental preciosa que, de outra forma, seria gasta em processos de busca e decisão, combatendo a paralisia que surge diante do caos organizacional.
  • Comunicação direta e objetiva: instruções ambíguas ou carregadas de sarcasmo em cards de tarefas podem gerar ruídos de interpretação, especialmente para profissionais autistas. O uso de frases curtas, checklists e comandos diretos garantem que a expectativa sobre a entrega seja compreendida por toda equipe sem esforço extra.
  • Gestão de estímulos e notificações: o excesso de alertas em ferramentas como Slack ou Jira pode causar sobrecarga sensorial e fragmentar a concentração. Líderes devem configurar o processo para que apenas o que for essencial gere interrupções, protegendo o estado de “fluxo” da equipe e mantendo a previsibilidade.
  • Design de documentos e tipografia: ao criar documentos de controle, o uso de tópicos, negrito para destacar pontos-chave e um bom espaçamento entre parágrafos facilita a leitura para profissionais com dislexia ou dificuldades de foco. A organização visual torna a informação mais “escaneável” e menos cansativa.

Como garantir a qualidade?

O papel da liderança de projetos não é realizar auditorias técnicas profundas, mas garantir que o processo de validação aconteça. Para que o controle de qualidade seja efetivo, é preciso integrar os seguintes tipos de avaliação:

  • Testes automatizados: incentivar o uso de ferramentas que varrem o código em busca de erros óbvios de acessibilidade logo nas primeiras fases do desenvolvimento. Isso ajuda bastante, mas é importante pontuar que a verificação é superficial e focada em alguns pontos apenas.
  • Testes com pessoas com deficiência: o controle mais eficiente é o real. A liderança do projeto deve prever no cronograma momentos de teste com profissionais com deficiência. Nada substitui a experiência de quem usa a tecnologia assistiva no dia a dia e este perfil profissional pode analisar sob a perspectiva da pessoa usuária, mas com rigor técnico.

Checklist prático para tornar sua próxima sprint mais inclusiva

Teoria e estratégia são os pilares, mas a acessibilidade só se torna real quando é “fatiada” e inserida nas tarefas do dia a dia. O papel da liderança de projetos visa garantir que a inclusão faça parte de todos os ritos de controle do time.

Ao integrar estas verificações simples em momentos como a Sprint Planning (planejamento do ciclo) ou a Daily (alinhamento diário), você transforma a acessibilidade em um padrão de qualidade natural, e não em um esforço extra de última hora. Use este checklist a seguir para nortear suas próximas reuniões e revisões.

No planejamento (Planning)

  • Critérios de aceitação: cada história de pessoa usuária (user story) possui requisitos claros de acessibilidade, como operabilidade por teclado ou textos alternativos?
  • Estimativa realista: o time considerou o tempo necessário para testes de acessibilidade no esforço estimado para a tarefa?
  • Definição de pronto (DoD): ficou acordado que nenhuma tarefa será movida para “Concluído” sem passar por uma validação básica de acessibilidade?

Na execução e ferramentas

  • Nomenclatura de cards: os nomes das tarefas no quadro (Jira/Trello) são autodescritivos e compreensíveis sem a dependência de contexto externo?
  • Uso de cores e tags: as etiquetas de prioridade e status utilizam texto e cor simultaneamente para garantir a compreensão de todas pessoas?
  • Documentação de apoio: os prints (captura) de tela e fluxogramas anexados aos cards possuem uma breve descrição em texto para colegas com deficiência visual?

Na comunicação e alinhamento

  • Links no Slack/Teams: os links compartilhados no chat descrevem o destino em vez de usar termos genéricos como “clique aqui”?
  • Gravações e atas: as reuniões gravadas possuem transcrição ou atas estruturadas com cabeçalhos para consulta rápida e acessível?
  • Notificações: o volume de notificações das ferramentas foi ajustado para evitar sobrecarga sensorial na equipe?

Na revisão (Review & Retro)

  • Demo acessível: durante a demonstração do que foi construído, o time consegue mostrar como a funcionalidade se comporta usando apenas o teclado?
  • Lições aprendidas: houve algum impedimento de acessibilidade neste ciclo que precisamos resolver no processo da próxima sprint

Ao adotar esses processos, líderes de projetos garantem um ambiente onde profissionais de qualquer perfil podem liderar e contribuir com seu máximo potencial. Explore outros conteúdos em nosso blog para aprender mais sobre acessibilidade digital e garanta que sua próxima reunião de planejamento já comece com essa nova perspectiva.


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