Pesquisa revela falhas de acessibilidade em toda a experiência no cinema


Foto do palco do evento de lançamento dos resultados da Pesquisa Nacional de Acessibilidade nos Cinemas. Sobre ele estão a intérprete de Libras, a mediadora Alessa Paiva, além das painelistas Simone Freire e Amanda Lyra. Atrás delas há um telão onde estão projetados o logotipo da pesquisa, fotos e nomes das participantes e a legenda em tempo real.
Simone Freire, do Web para Todos, debate sobre as falhas de acessibilidade na experiência digital com Alessa Paiva e Amanda Lyra, da Acessara, durante evento de lançamento do estudo. | Foto: Arquivo pessoal

Ir ao cinema é um processo que envolve muitas etapas, começando pela escolha do filme, acesso ao trailer, compra do ingresso e da pipoca até o momento de se acomodar na sala e aproveitar a sessão. 

Pode ser relativamente simples para a maioria das pessoas, mas para muitas outras, especialmente aquelas com deficiência, esse percurso ainda é marcado por diversas barreiras de acessibilidade. 

Grande parte delas começa antes mesmo da entrada na sala. “A experiência começa no primeiro clique.” A frase, dita por Simone Freire, idealizadora do Movimento Web para Todos, durante o evento de lançamento da Pesquisa Nacional de Acessibilidade nos Cinemas (PNAC), resume bem o desafio. 

A jornada de quem deseja assistir a um filme não começa na bilheteria, mas no momento em que surge o interesse, muitas vezes a partir de um post nas redes sociais. “E do mesmo jeito que a experiência começa no primeiro clique, ela também pode terminar ali. Esse tipo de frustração é constante na vida de milhões de pessoas com deficiência que também têm o direito de se divertir nos cinemas”, reforça Simone.

E é justamente nesse ponto que a exclusão começa a acontecer. Os dados apresentados na pesquisa mostram que as redes sociais são hoje a principal fonte de informação sobre filmes para o público com deficiência, seguidas pela indicação de outras pessoas e pelos sites das redes de cinema. 

O estudo foi realizado entre julho e outubro de 2025 e reuniu respostas de 1.008 pessoas, sendo mais da metade composta por pessoas com deficiência. A PNAC foi conduzida pela Acesssara e contou com apoio do Movimento Web para Todos, Warner Bros. Pictures, Universal Pictures, Talento Incluir, Movimento Legenda Nacional, Mload, MovieReading, Museu de Artes do Rio (MAR), Tambor Biz, Vale PcD e Maré Dissidente Libras.

Divulgação ainda exclui

Segundo a PNAC, 60% das pessoas consideram as campanhas de divulgação dos filmes pouco ou nada acessíveis, e esse número chega a cerca de 70% entre pessoas com deficiência visual. Isso significa que conteúdos pensados para atrair o público acabam, na prática, afastando uma parcela significativa dele.

O problema se repete nos trailers e comerciais exibidos antes dos filmes. Das pessoas entrevistadas, 53% afirmam não perceber recursos de acessibilidade nesses conteúdos. Sem audiodescrição, legendas descritivas ou outras adaptações, a informação simplesmente não chega ao público ou chega de forma incompleta.

Falta de informação e de acesso

A principal barreira apontada pela pesquisa é a comunicacional, com 47,5% dos respondentes relatando dificuldade em obter informações claras e acessíveis ao longo da jornada.

Esse dado aparece com ainda mais força quando se observa o conjunto das barreiras enfrentadas. Além da comunicação, 40,5% mencionam obstáculos físicos e 38,2% apontam barreiras atitudinais. Ou seja, a exclusão não acontece em um único ponto, mas se constrói ao longo de toda a experiência.

No ambiente digital, isso se traduz em sites e aplicativos pouco acessíveis, ausência de informações sobre recursos disponíveis e dificuldades de navegação. Quando a pessoa não consegue compreender o que está sendo oferecido ou como acessar determinado recurso, a experiência já começa comprometida.

Tecnologia existe, mas não é percebida

Outro achado relevante é o descompasso entre disponibilidade e acesso. De quem respondeu a pesquisa, 55% não sabem que existem aplicativos ou recursos de acessibilidade para cinema. E mesmo entre pessoas com deficiência esse desconhecimento atinge 51% .

Quando essas soluções são apresentadas, cerca de 70% ainda afirmam não conhecê-las. Entre as poucas que conhecem, o Moviereading aparece com 22% de reconhecimento, seguido por Mload, com cerca de 10%, e Greta, com 5%.

Mesmo entre quem utiliza esses recursos, a experiência está longe de ser fluida, já que 43% relatam interrupções por problemas técnicos ou falta de suporte adequado. Isso mostra que a existência de tecnologia, por si só, não garante inclusão. “É preciso que ela funcione e esteja integrada à jornada como um todo. Por isso, é fundamental que as equipes trabalhem em conjunto”, explica Simone.

Representação ainda é rara

A PNAC também aponta um problema estrutural na forma como pessoas com deficiência aparecem (ou deixam de aparecer) nos conteúdos audiovisuais. A maioria (59%) diz perceber essa representação raramente, enquanto 15% afirmam nunca percebê-la.

Quando há representação, ela ainda é considerada superficial por 58% das pessoas e estereotipada por 39%. Apenas 20% avaliam essas representações como realistas e respeitosas.

Embora esse ponto vá além do digital, ele influencia diretamente a sensação de pertencimento e conexão com o conteúdo, que se reflete em todos os canais virtuais e físicos.

A experiência não é a mesma para todo mundo

As consequências dessas barreiras são concretas. Cerca de 45% das pessoas com deficiência relatam sentir insegurança, desconforto ou exclusão ao ir ao cinema, enquanto entre pessoas sem deficiência esse número é de apenas 10%.

Além disso, quase metade do total de respondentes considera as equipes dos cinemas pouco ou nada preparadas para atender ao público que necessita de acessibilidade, percentual que sobe para 57% entre as próprias pessoas com deficiência. 

Acessibilidade começa antes da tela

Os dados do estudo deixam claro que a acessibilidade no cinema não se limita à sala de exibição. Ela começa no momento em que a pessoa entra em contato com um conteúdo digital e segue por toda a jornada, passando pela busca de informações, pela compra do ingresso, pelo acesso aos recursos disponíveis até o momento de assistir ao filme dentro da sala.

Isso envolve uma rede formada por produtoras, distribuidoras, plataformas digitais e redes de cinema. Murillo Santana, diretor de negócios e projetos do MovieReading, que também participou do evento de lançamento da PNAC, finalizou os debates reforçando que essa rede “precisa atuar de forma integrada porque, no final das contas, todas trabalham com o mesmo objetivo, que é tornar a experiência com o filme a melhor possível para todas as pessoas”.

Essa ideia também é compartilhada por Alessa Paiva e Amanda Lyra, coordenadoras da pesquisa e sócias da Acessara. “Acreditamos que a inclusão acontece de fato na experiência. Esperamos que esse estudo possa contribuir para o acesso amplo à cultura, um direito humano fundamental.”


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