
Em um cenário cada vez mais regulado, diverso e atento à responsabilidade corporativa, ignorar barreiras em ambientes digitais pode indicar falta de compromisso com a inclusão, além de deixar a organização mais vulnerável a riscos legais, reputacionais e culturais.
Garantir que a empresa esteja em conformidade com as diretrizes de acessibilidade digital passa a ser também uma questão de ética e alinhamento real com os valores que a empresa declara defender.
Quando políticas, canais de denúncia, treinamentos e comunicações internas não são acessíveis, parte das pessoas simplesmente fica de fora dos processos de integridade. Isso compromete a efetividade do compliance e enfraquece a confiança na organização.
Por isso, além das recomendações gerais de acessibilidade digital já abordadas nos posts anteriores desta série, reunimos cinco práticas específicas para profissionais que atuam no compliance e que desejam atuar de forma mais estratégica, inclusiva e responsável.
1. Incorpore a acessibilidade nas políticas da organização
A acessibilidade digital precisa deixar de ser um “extra” ou um anexo e passar a fazer parte das políticas formais da organização. Códigos de conduta, políticas internas, normativos e diretrizes de governança devem mencionar explicitamente o compromisso com a acessibilidade, estabelecendo responsabilidades claras e expectativas objetivas. Isso ajuda a institucionalizar o tema e evita que ele dependa apenas da boa vontade de áreas ou pessoas específicas.
Na prática, isso significa revisar documentos para garantir linguagem simples e clara, formatos acessíveis e diretrizes que orientem equipes internas e de empresas parceiras. Ao incluir a acessibilidade como um princípio de compliance, a empresa reforça que integridade também envolve garantir que todas as pessoas tenham acesso igualitário à informação, aos processos e aos canais institucionais.
2. Garanta conformidade com legislações e normas de acessibilidade
Conhecer e aplicar a legislação é uma das bases do trabalho em compliance. Com acessibilidade digital não é (e nem pode ser) diferente. No Brasil, a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) estabelece o direito das pessoas com deficiência ao acesso à informação e à comunicação em igualdade de condições. Já as diretrizes internacionais de acessibilidade, como descrito no WCAG, oferecem critérios técnicos claros para ambientes digitais, que também podem ser conferidos na norma ABNT NBR 17225, lançada em março do ano passado.
Cumprir essas normas demonstra coerência entre discurso e prática. Não devem ser encaradas apenas como forma de evitar sanções ou litígios. As diretrizes valem para todos os canais digitais, como sites corporativos, plataformas de treinamento, intranets, entre outros.
Quando a acessibilidade é tratada como requisito de conformidade, a empresa reduz riscos legais e fortalece uma cultura organizacional baseada em respeito e responsabilidade social.
3. Revise documentos e treinamentos de compliance para o público interno
Manuais, políticas e treinamentos de compliance só cumprem seu papel quando todas as pessoas conseguem acessá-los, compreendê-los e utilizá-los. Documentos extensos, PDFs inacessíveis, vídeos sem legenda ou treinamentos que dependem exclusivamente de recursos visuais, por exemplo, criam barreiras silenciosas, mas profundas, para parte do público interno.
Revisar esses materiais sob a perspectiva da acessibilidade é uma ação estratégica. Isso pode envolver ajustes de linguagem, estrutura dos textos, formatos alternativos, recursos de apoio e plataformas mais inclusivas.
Quando os conteúdos de compliance são acessíveis, a empresa amplia o alcance das orientações, aumenta a adesão às normas e promove um ambiente mais justo e participativo. Todo mundo se beneficia da acessibilidade, não apenas as pessoas com deficiência.
4. Implemente canais de denúncia acessíveis
Canais de denúncia são pilares dos programas de integridade, mas só funcionam plenamente quando todas as pessoas conseguem utilizá-los com autonomia e segurança. Plataformas digitais de ouvidoria que não são acessíveis excluem justamente quem pode estar mais vulnerável ou precisar desses canais para relatar situações de assédio, discriminação ou irregularidades.
Garantir acessibilidade nesses sistemas envolve desde a usabilidade da plataforma até a clareza das instruções e a compatibilidade com tecnologias assistivas. Um canal de denúncia acessível fortalece a confiança na organização, amplia a capacidade de identificação de riscos e reforça o compromisso ético da empresa com a escuta e a proteção de todas as pessoas.
5. Audite e monitore continuamente a acessibilidade digital
É um erro tratar a acessibilidade como um projeto que é feito e finalizado. Acessibilidade, independentemente da dimensão, é um processo vivo e contínuo, exige monitoramento e auditoria regulares.
Por isso, é necessário que seja incorporada na cultura da empresa e na rotina de todas as áreas, incluindo compliance. Assim como outros controles internos, a acessibilidade precisa ser acompanhada, medida e aprimorada ao longo do tempo.
Auditorias periódicas ajudam a identificar falhas, antecipar riscos e ajustar práticas antes que se tornem problemas maiores. Além disso, demonstram maturidade do programa de compliance e compromisso genuíno com a inclusão. Pequenas correções, quando feitas de forma consistente, geram impactos significativos na experiência das pessoas e na cultura organizacional.
De acordo com os advogados Denise Guedes e César Eduardo Lavoura Romão, quando o compliance é encarado de forma inclusiva, ele “assegura a inclusão, promove o aumento da diversidade dentro de uma organização e reduz as práticas de assédio e discriminação no ambiente de trabalho, potencializando os resultados e, ao mesmo tempo, contribuindo com a construção da integridade corporativa. Isso reflete diretamente na saúde organizacional, no desenvolvimento de ambiente seguro e inclusivo, nos indicadores de eficiência e inovação, na reputação e na sustentabilidade da organização.”