
*Tradução feita por Edivaldo Ferreira e edição de Cris Marques
Você já pensou na internet como algo “essencial” na vida das pessoas?
A web possibilita um alto grau de independência, em especial para pessoas com deficiência. Ela permite fazer diversas coisas, como escrever em blogs, ler notícias, fazer pesquisas, publicar artigos, participar de discussões globais e comprar produtos e serviços. Mas isso só é possível se os sites e aplicativos forem acessíveis.
Esse artigo, publicado originalmente pela WebAIM, aborda especificamente como a acessibilidade digital é essencial para garantir inclusão e independência às pessoas com deficiência motora, ressaltando que barreiras online podem limitar esse potencial. WebAim é uma organização sem fins lucrativos baseada no Instituto de Pesquisa, Política e Prática sobre Deficiência da Universidade Estadual de Utah, nos Estados Unidos.
O que é essencial para as pessoas com deficiências motoras?
Lá no começo da construção das Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web, a chamada WCAG (sigla para Web Content Accessibility Guidelines), o foco era a programação dos sites. Assim, foi criado o conceito em inglês POUR:
- Perceivable (Perceptível)
- Operable (Operável)
- Understandable (Compreensível)
- Robust (Robusto)
Quando o tema é a acessibilidade na web para pessoas com deficiência motora, o conceito mais importante a se considerar é o “Operável”.
As telas, o desenho, a estrutura e a navegação de um site devem ser “operáveis” por quem acessa. Afinal, nem todas as pessoas usuárias com deficiência motora conseguem usar um mouse, clicar em links pequenos ou interagir com facilidade com elementos dinâmicos que mudam com a interação. São exemplos menus que abrem e fecham, carrosséis de imagens que passam para o lado e até animações que reagem ao clique ou ao rolar de tela.
Conhecendo mais sobre os tipos de deficiências motoras
Deficiência por lesões traumáticas
Lesão na medula espinhal
Pessoas com paraplegia (paralisia das pernas) geralmente não têm dificuldade para acessar conteúdos da web. Já pessoas com tetraplegia (paralisia das pernas e dos braços) podem enfrentar dificuldades significativas, dependendo do tipo e da gravidade da lesão.
Essa condição pode tornar difícil ou até impossível usar um mouse ou digitar em um teclado. No entanto, existem tecnologias assistivas que permitem adaptar as habilidades da pessoa usuária ao equipamento (hardware) que ela usa.
Perda ou dano de membros
Uma pessoa que consegue usar apenas uma das mãos pode utilizar a web sem muita dificuldade com o auxílio de um teclado para uma mão. Já alguém que perdeu ambos os membros pode recorrer a outras tecnologias e dispositivos, como ponteira de cabeça, bastões bucais, softwares de reconhecimento de voz, entre outros.
Deficiência por doenças e condições congênitas
Paralisia cerebral
A paralisia cerebral é uma lesão no cérebro que causa diminuição do controle muscular. Geralmente ela ocorre durante o desenvolvimento do bebê na barriga ou logo após o nascimento. Entre suas características estão rigidez ou espasmos musculares, movimentos involuntários, dificuldade na fala e, em alguns casos, paralisia.
No uso de computadores, a paralisia cerebral interfere principalmente na destreza ao usar o mouse. Usar um teclado ou teclado adaptado pode ser possível, mas pode causar algumas dificuldades.
Distrofia muscular
A distrofia muscular é um distúrbio genético em que os genes responsáveis pelas proteínas musculares estão danificados, causando degeneração progressiva dos músculos. Ela pode afetar pessoas de qualquer idade, mas é mais comum em crianças.
As tecnologias assistivas utilizadas dependem do nível e da amplitude das habilidades da pessoa. Isso pode incluir mouses de cabeça, bastões bucais, teclados adaptados, softwares de reconhecimento de voz, entre outros.
Esclerose múltipla
A esclerose múltipla desgasta a mielina (uma camada de tecido gorduroso que envolve as fibras nervosas). Isso impede que os nervos transmitam corretamente os sinais do sistema nervoso central para os músculos do corpo. Seus efeitos incluem tremores, fraqueza, dormência, dificuldade para caminhar, espasticidade (termo médico que descreve quando os músculos ficam excessivamente tensos ou rígidos), fala arrastada, rigidez muscular, comprometimento da memória e, em alguns casos, paralisia.
Nem todas as pessoas apresentam todos esses sintomas, e uma mesma pessoa pode vivenciar sintomas diferentes ao longo do tempo. Os tipos de tecnologias assistivas e dispositivos utilizados são os mesmos aplicados a outras deficiências motoras.
Espinha bífida
A espinha bífida é uma doença congênita que pode causar dificuldades motoras e, em alguns casos, paralisia. Em determinadas situações, pode haver acúmulo de líquido que afeta e danifica o cérebro. Algumas pessoas também apresentam dificuldades de aprendizagem e de linguagem como consequência dessa condição.
Esclerose lateral amiotrófica
A esclerose lateral amiotrófica (ELA), também conhecida como doença de Lou Gehrig, é uma doença degenerativa que impede os neurônios de enviarem impulsos aos músculos. Com o tempo, os músculos enfraquecem, o que afeta a destreza para usar o mouse ou o teclado. Em estágios mais avançados, a condição pode comprometer os músculos responsáveis pela respiração, levando ao óbito. Os sintomas incluem lentidão nos movimentos e/ou na fala.
Artrite
A dor causada pela artrite pode interferir no controle motor fino necessário para usar um teclado ou para operar um mouse, touchpad ou dispositivo móvel ao clicar em links ou botões pequenos. Dependendo do nível de conforto da pessoa, podem ser utilizadas alternativas como mouse trackball (com uma bola visível na parte de cima ou lateral, que pode ser girada com os dedos ou a palma da mão), ferramentas digitais de reconhecimento de voz, pedais acionados pelos pés ou outras tecnologias assistivas.
A dor nas articulações também pode causar fadiga, limitando o tempo que a pessoa consegue passar no computador usando o mouse e digitando no teclado.
Doença de Parkinson
Ela é um distúrbio do sistema nervoso central que causa tremores involuntários e/ou rigidez muscular. Essa condição pode dificultar significativamente o uso do mouse e do teclado. Em alguns casos, a voz também é afetada, a ponto de o uso de uma ferramenta digital de reconhecimento de voz não ser uma opção viável.
Tremor essencial
Assim como a doença de Parkinson, o tremor essencial é um distúrbio neurológico que pode causar tremores involuntários. Ele afeta com mais frequência a parte superior do corpo, como mãos, braços, cabeça e laringe, o que pode impactar a voz.
Tornando a web acessível para pessoas com deficiências motoras
Confira algumas sugestões de boas práticas que profissionais de desenvolvimento podem aplicar para diminuir os desafios e as barreiras que as pessoas com deficiência motora enfrentam no uso da internet.
Impossibilidade do uso do mouse
Garanta que todas as funções estejam disponíveis tanto para quem usa mouse/touchpad quanto teclado (por exemplo, navegar usando a tecla “Tab” de link em link).
Para quem não consegue controlar bem o mouse ou o teclado
Garanta que formulários sejam tolerantes a erros (exemplo: perguntar “Deseja excluir este arquivo?”). Crie links e botões suficientemente grandes e que permaneçam em posição fixa. Permita que as pessoas usuárias configurem ou desativem atalhos de tecla única.
Uso de ferramentas digitais ativadas por voz
Softwares ativados por voz podem reproduzir movimentos do mouse, mas não tão eficientemente quanto as funções do teclado. Garanta que todas as funções estejam disponíveis via teclado. Forneça textos descritivos para links e botões.
Cansaço ao usar tecnologias assistivas
Ofereça um método para pular listas longas de links ou outros conteúdos extensos.
Impossibilidade de interação com o aparelho
Garanta que o conteúdo funcione tanto na orientação horizontal quanto vertical e não dependa de ações por movimento, como sacudir ou inclinar o dispositivo, nem de gestos de apontamento como deslizar ou arrastar.
Conheça tecnologias assistivas para pessoas com deficiências motoras
Como a maioria das tecnologias assistivas funciona por meio do teclado ou reproduz suas funcionalidades, ou utiliza interações de mouse ou touchpad, o ponto-chave para profissionais de desenvolvimento é projetar interações que não dependam de um tipo específico de entrada ou tecnologia.
Bastão bucal
Uma pessoa que não consegue usar as mãos pode utilizar um bastão bucal para interagir com o teclado e, dependendo do nível de controle e paciência, também com um mouse trackball. Geralmente, há uma ponta de borracha em uma extremidade para oferecer melhor aderência e uma parte de plástico ou borracha na outra extremidade, que a pessoa coloca na boca.
Ponteira de cabeça (head wand, em inglês)
As ponteiras de cabeça são semelhantes aos bastões bucais, mas são usadas com uma faixa na cabeça. A pessoa move a cabeça para interagir com o teclado. A fadiga pode ser um problema quando a tarefa exige muitas digitações.
Interruptor de acesso único
Pessoas com mobilidade muito limitada utilizam esse tipo de dispositivo. Por exemplo, se uma pessoa consegue mover apenas a cabeça, um interruptor pode ser colocado ao lado dela para ser acionado com movimentos da cabeça. Os cliques são interpretados por um dispositivo no computador, permitindo a navegação pelo sistema operacional, páginas da web e outros ambientes.
Alguns softwares facilitam a digitação ao usar recursos de autocompletar, tentando completar o que a pessoa está escrevendo e permitindo que ela escolha entre as palavras sugeridas.
Interruptor de aspirar e assoprar
Semelhantes ao funcionamento do interruptor de acesso único, os interruptores de aspirar e assoprar interpretam as ações de respiração da pessoa usuária como sinais de ligado/desligado. Eles podem ser usados para diversas finalidades, desde controlar uma cadeira de rodas até navegar em um computador. O aparelho pode ser combinado com programas que ampliam a funcionalidade desse dispositivo simples para aplicações mais sofisticadas.
Mouse trackball grande
O mouse trackball não é necessariamente uma tecnologia assistiva, já que algumas pessoas sem deficiência preferem ele do que o mouse tradicional. No entanto, ele costuma ser mais fácil para o uso de quem tem deficiência motora. Por exemplo, alguém pode utilizá-lo em conjunto com uma ponteira de cabeça ou um bastão bucal, pois é mais fácil manipular a bola do trackball do que mover um mouse convencional.
Quem tem tremores nas mãos também pode preferir esse tipo de mouse, já que depois que o cursor é posicionado no local desejado, há menor risco de movê-lo acidentalmente ao clicar. Além disso, se necessário, o trackball pode ser operado até mesmo com o pé.
Teclado adaptado
Se uma pessoa não consegue realizar movimentos precisos com as mãos, um teclado adaptado pode ser muito útil. Alguns modelos possuem áreas elevadas entre as teclas, no lugar de áreas rebaixadas, permitindo que a pessoa apoie a mão no teclado e depois deslize o dedo até a tecla correta. Quem tem tremores ou movimentos espásticos também pode se beneficiar desse tipo de teclado.
Também existem sobreposições para teclados padrão que oferecem o mesmo efeito. Alguns teclados adaptados incluem funcionalidades de autocompletar palavras, o que permite digitar usando menos toques.
Rastreamento ocular (eye-tracking, em inglês)
Dispositivos de rastreamento ocular podem ser uma alternativa poderosa para pessoas com controle limitado ou inexistente dos movimentos das mãos. Eles permitem navegar na web usando apenas os movimentos dos olhos. Uma aplicação possibilita a digitação e pode incluir tecnologias de autocompletar palavras para acelerar o processo.
Esses sistemas costumam ser caros (geralmente custam milhares de dólares) e, por isso, são menos comuns do que dispositivos mais simples, como bastões bucais e ponteiras de cabeça.
Ferramenta de reconhecimento de fala (Dragon)
Outra alternativa é a instalação de softwares que permitem controlar o computador por meio de comandos de voz e ditado. Um aplicativo amplamente utilizado é o Dragon, fabricado pela Nuance. Christopher Reeve (ator, diretor, produtor e ativista dos Estados Unidos, famoso por seu papel no filme Superman), por exemplo, tinha a vantagem de possuir uma voz clara que podia ser interpretada com facilidade por esse tipo de software.
No entanto, algumas deficiências motoras (especialmente a paralisia cerebral) podem dificultar a fala, já que os músculos responsáveis pela voz respondem de forma mais lenta.
Outras tecnologias assistivas
As tecnologias descritas acima estão entre as mais comuns, mas existem milhares de dispositivos disponíveis para atender a uma ampla variedade de deficiências motoras. Apesar dessa diversidade, a maioria funciona por meio do teclado, simula suas funcionalidades ou oferece métodos alternativos de entrada equivalentes ao mouse ou touchpad.
*Texto traduzido por Edivaldo Ferreira e adaptado por Cris Marques, respectivamente tradutor e jornalista. Ambos fazem parte da Liga Voluntária do Movimento Web para Todos.