Como a inteligência artificial tem ampliado a autonomia de pessoas com deficiência no digital


Ilustração de uma mulher sentada em cadeira de rodas à uma mesa com livros e papéis. Na sua frente há uma grande tela com um robô ao centro.

Por Bruno Santerres, Cybele Melo, Diego Conceição,  Elza Maria Albuquerque e Natália Alcantara*

Para muitas pessoas com deficiência, acessar a web ainda exige estratégias ou esforços a mais. Nem sempre os sites funcionam com leitores de tela, formulários travam, vídeos não têm legenda e documentos não são legíveis. Esses são apenas alguns exemplos de desafios. Segundo pesquisa realizada em 2024 pela BigDataCorp em parceria com o Movimento Web Para Todos, apenas 2,9% dos sites brasileiros passaram em todos os testes de acessibilidade.

Nesse contexto, ferramentas de inteligência artificial (IA) têm se tornado aliadas importantes para contornar barreiras e ampliar a autonomia na navegação. Elas ajudam a ler, a escrever, a ouvir, a entender conteúdos e a concluir tarefas em ambientes digitais que ainda não são acessíveis desde a origem.

Para entender como isso acontece na prática, o Movimento Web Para Todos conversou com pessoas que fazem parte da Liga Voluntária, um dos seus embaixadores e outras pessoas do nosso círculo de atuação. Buscamos reunir perspectivas de diferentes tipos de deficiência para compreender como a inteligência artificial vem sendo usada no cotidiano e também quais são seus limites.

O uso dessas tecnologias não acontece apenas na vida pessoal. Um relatório global da Randstad aponta que profissionais com deficiência estão entre as pessoas que mais usam ferramentas de IA no ambiente de trabalho. Elas usam esses recursos para resolver problemas do dia a dia, organizar tarefas e acessar informações. No Brasil, essa realidade aparece nas histórias que reunimos nesta reportagem.

A seguir, apresentamos algumas dessas experiências.

Autonomia no centro da experiência digital

Para pessoas com deficiência motora, visual ou auditiva, a IA tem se tornado um apoio importante para otimizar processos e ampliar a autonomia em tarefas específicas. Em muitos casos, o que muda não é a execução das atividades em si, mas o tempo de realização e a possibilidade de validar informações com mais agilidade.

Um exemplo disso é o que acontece com Liliane Cláudia, que tem tetraplegia e utiliza comandos de voz como principal forma de interação com a web. Ela conta que ferramentas como o ChatGPT permitem escrever textos, responder e-mails e transcrever reuniões com muito mais agilidade.

“O ChatGPT consegue entender a minha voz, mesmo com a minha baixa projeção, o que é um diferencial. Isso me permite responder e-mails, ditar textos longos para minha newsletter e transcrever reuniões de forma rápida. A IA não foi criada para ser uma ferramenta de acessibilidade, mas sua excelente tecnologia de reconhecimento de voz acaba servindo a esse propósito de forma exemplar.”

Para Liliane, o fato de uma tecnologia não ter sido criada com foco direto em acessibilidade, mas ainda assim facilitar sua rotina, reforça a importância de que produtos digitais considerem múltiplas formas de interação desde a concepção.

No caso da deficiência visual, a IA amplia o acesso a informações que antes eram essencialmente visuais. Luciane Maria Molina Barbosa, pessoa cega analista em acessibilidade digital, relata como passou a compreender imagens, cenas do cotidiano e até produzir apresentações sozinha.

“Com o apoio da IA, consegui ‘ver’ a lua no céu, acompanhar o surgimento de um arco-íris, perceber o pôr do sol e entender as cores e transições dele, por exemplo. No campo profissional, lembro claramente da primeira vez em que consegui produzir sozinha um PowerPoint para uma palestra com recursos visuais bem organizados. A IA reduziu a necessidade de mediação constante de outras pessoas e fortaleceu minha participação social e profissional.”

Entre as pessoas com deficiência visual que participaram desta matéria, o uso de ferramentas, como o Be My Eyes, é muito comum. Isso acontece de várias formas, como descrever imagens, interpretar telas e conteúdos compartilhados em grupos e redes sociais, compreender a organização visual de páginas. A IA, nesses casos, atua como mediadora do ambiente digital e amplia a autonomia e a compreensão de elementos que antes dependiam somente de outras pessoas.

Como relata Muriel Xavier: “Uso o Be My Eyes todos os dias para descrever imagens e interagir; muitos grupos de mensagens enviam fotos. Utilizo o ChatGPT para perguntar algo específico. Tudo isso me traz independência, pois são barreiras que consigo transpor sem necessitar da ajuda de outras pessoas. Muitas vezes estou sozinha e poder contar com a IA me permite seguir e realizar as minhas tarefas.”

A IA contribui para a mediação e ampliação do conhecimento, tornando conteúdos complexos mais compreensíveis. Para Alexandre Ohkawa, que é surdo, a barreira é frequentemente linguística. A Língua Portuguesa é o primeiro idioma dele e o segundo é Libras. Ele usa o ChatGPT e o Gemini para interpretar conteúdos e simplificar textos mais difíceis de serem compreendidos. 

“A tarefa mais útil é a interpretação e a simplificação de conteúdos complexos e longos. Se eu busco informações no site oficial do FGTS e a linguagem é vaga, o ChatGPT explica claramente, dando exemplos de situações e contextos jurídicos complexos que seriam difíceis de entender sozinho.”

Alexandre também destaca que o uso da IA exige aprendizado. Segundo ele, entender como formular pedidos claros e interpretar as respostas demanda treino constante. Isso mostra que a autonomia mediada por IA não elimina a necessidade de letramento digital.

Além das ferramentas usadas diretamente na web, algumas pessoas falaram sobre o uso de tecnologias vestíveis como parte da experiência de autonomia digital. Dispositivos equipados com IA ampliam a interação com o ambiente físico e expandem o acesso à informação para além da tela.

Luciane Maria Molina Barbosa conta: “Uso especialmente os óculos Meta com inteligência artificial, que se tornaram uma extensão importante da minha autonomia. Com eles, consigo interagir com o ambiente de forma mais fluida e natural, usando recursos de mãos livres para captar imagens, vídeos e obter descrições de cenas, objetos, rótulos, ambientes e situações ao meu redor. Isso transforma pequenos gestos cotidianos em experiências mais acessíveis e conscientes. No uso diário, os óculos me permitem reconhecer espaços, compreender contextos visuais enquanto caminho pela cidade e receber descrições em tempo real.”

Bruno Simão também menciona o uso de dispositivos conectados no cotidiano: “Uso o Apple Watch o tempo inteiro. Ele me ajuda a acompanhar notificações, responder rapidamente mensagens e monitorar atividades sem precisar recorrer ao computador ou ao celular o tempo todo.”

Quando a IA ajuda a driblar barreiras de acessibilidade na web

Sites e aplicativos ainda apresentam falhas comuns de acessibilidade. Nessas situações, a IA costuma funcionar como uma solução improvisada para acessar informações.

Entre os problemas mais citados estão CAPTCHAs que não são acessíveis (testes usados em sites para confirmar que quem acessa é uma pessoa), botões sem rótulo, imagens sem descrição e documentos em formatos difíceis de ler com tecnologias assistivas.

Muriel Xavier, que tem deficiência visual, relata que já usou o aplicativo Be My Eyes para identificar caracteres de CAPTCHA e usou o ChatGPT para buscar informações em sites que não funcionavam bem com leitor de tela.

Bruno Simão, também cego, diz que costuma capturar a tela e pedir para a IA descrever a organização da página. “Muitas vezes faço uma captura de tela (print) da página e peço para a IA descrevê-la para mim, inclusive detalhando a ordem dos elementos quando há elementos sem rótulo para que eu possa saber a função de cada um.”

Em ambientes de trabalho, a IA também aparece como apoio para preparar ou acessar  documentos e apresentações. Diego Conceição, especialista em acessibilidade digital, afirma que hoje consegue criar materiais visuais em menos tempo, algo que antes levava dias.

Os limites e os riscos do uso da IA

Apesar dos avanços, as pessoas entrevistadas alertam para riscos importantes do uso da IA. O maior desafio é que a tecnologia se torne uma desculpa para o descaso com a acessibilidade nativa.

Alexandre Ohkawa destaca o receio de que soluções automáticas de baixa qualidade sejam usadas no lugar de pessoas profissionais especializadas. “O meu maior medo é que as empresas usem a IA como uma substituição barata (por exemplo, legendas automáticas de baixa qualidade) e não como um complemento para a acessibilidade. Isso pode levar à não contratação de profissionais humanos essenciais, como intérpretes de Libras e especialistas em acessibilidade”.

Alexandre também chama atenção para um desafio menos visível: a necessidade constante de validar as informações geradas pela IA. Para ele, a checagem contínua pode cansar e exige esforço cognitivo elevado, especialmente quando a informação impacta decisões importantes.

Bruno Simão também se preocupa com isso. “Tenho medo de que as empresas parem de tornar os sites acessíveis nativamente (seguindo a lei), achando que ‘a IA do usuário que se vire para ler’. A IA deve ser um apoio, não uma desculpa para o descaso com a acessibilidade na origem.”

Liliane também aponta um risco estrutural: se a maior parte da web ainda não é acessível, e esses padrões alimentam o treinamento dos modelos, a IA pode acabar reproduzindo as mesmas barreiras ao automatizar a criação de novos sites.

A especialista também questiona a qualidade das informações usadas para treinar esses sistemas. Segundo ela, quando os modelos utilizam principalmente dados criados artificialmente, e não experiências reais de quem usa recursos de acessibilidade no dia a dia, podem acabar se distanciando das necessidades concretas dessas pessoas.

As pessoas entrevistadas compartilharam também problemas que vão desde a IA que insiste em usar termos capacitistas até a que fornece instruções perigosamente erradas. Diego também compartilhou uma situação em que a IA forneceu uma instrução incorreta: “Estava tentando configurar o controle do meu ventilador de teto. Mesmo fornecendo informações importantes, a inteligência artificial ainda assim me ensinou a configurar de maneira errada. Eu mesmo tive que descobrir como fazer a atividade sozinho.”

Entre as limitações, aparece também o fenômeno conhecido como “alucinação”. Bruno Simão conta melhor sobre isso. “Às vezes a IA descreve algo que não existe ou ignora um detalhe crucial de segurança em uma interface. Outra falha é o viés, ou seja, se a base de dados não incluir a perspectiva da pessoa com deficiência, a IA sugere soluções ‘capacitistas’ que não funcionam na prática.”

Alexandre afirma que já precisou corrigir repetidamente a IA para que usasse o termo correto “Língua de Sinais” em vez de “Linguagem de Sinais”, destacando como os modelos reproduzem imprecisões conceituais e culturais.

Como resume Bruno Yan da Silva Santerres, “ao mesmo tempo que a inteligência artificial promove a autonomia e talvez um ganho de produtividade, desafios de segurança e testes de acessibilidade mal executados ainda representam um risco potencial presente e futuro.”

A tecnologia aparece, assim, como aliada importante, mas não como substituta da responsabilidade humana e institucional na garantia do direito à acessibilidade.

O que ainda falta para a IA apoiar melhor a acessibilidade

As pessoas entrevistadas para esta reportagem contam o que esperam de uma ferramenta de IA ideal para acessibilidade. Uma das expectativas é o desenvolvimento de soluções capazes de compreender e traduzir Libras em tempo real, respeitando expressões faciais, movimentos e o uso do espaço visual da língua.

Também há a necessidade de avanços no reconhecimento visual contínuo, com descrições ajustáveis de ambientes, pessoas e objetos em tempo real, ampliando o acesso a informações essencialmente visuais.

A integração entre dispositivos aparece como outra demanda central. A possibilidade de iniciar uma tarefa no computador e continuar por comandos de voz no celular ou na TV, mantendo o histórico e o contexto da interação, ampliaria significativamente a autonomia de pessoas com deficiência.

Mais do que novas funcionalidades, as falas indicam a importância de que essas tecnologias sejam desenvolvidas com participação ativa de pessoas com deficiência e com atenção às diferentes formas de uso no cotidiano.

A IA já tem mudado a vida de muitas pessoas com deficiência. Ela ajuda a aumentar a autonomia e a facilitar o trabalho, melhorando, por exemplo, a produtividade. Mas a tecnologia não substitui a responsabilidade de criar sites e serviços digitais acessíveis desde o início.

Esses recursos podem ajudar a reduzir barreiras, mas não podem servir de justificativa para a falta de acessibilidade. A inclusão digital acontece também quando a tecnologia complementa o trabalho humano e os princípios do desenho universal – e não para substituir a responsabilidade de criar sites e aplicativos acessíveis desde o código.

*Reportagem produzida por Bruno Santerres, Cybele Melo, Diego Conceição, Elza Maria Albuquerque e Natália Alcantara, que fazem parte da Liga Voluntária do Movimento Web para Todos.


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