Reinaldo Ferraz conta sua trajetória profissional e o envolvimento na luta por uma web acessível


Reinaldo Ferraz está sorrindo. Ele tem cabelos curtos, barba e olhos claros.
Reinaldo Ferraz,  especialista em desenvolvimento web no Ceweb.br/W3C Brasil. Foto: Arquivo pessoal.

Por Natália Alcantara*

De amor à primeira vista a projeto paralelo e missão profissional. Esses foram os espaços ocupados pela acessibilidade digital na vida de Reinaldo Ferraz desde quando ele ouviu falar pela primeira vez sobre esse tema em meados dos anos 2000.

Formado em desenho e computação gráfica, atua como especialista em desenvolvimento web nas organizações Ceweb.br/W3C Brasil (principal organização internacional que recomenda os padrões para a criação e a interpretação de conteúdos para a web).  Ambos apoiam o WPT institucionalmente.

Reinaldo está sempre fazendo palestras e participando de debates pelo Brasil com a missão de disseminar os conceitos sobre acessibilidade digital e os padrões recomendados na cartilha WCAG 2.1. Ele é referência entre os profissionais que trabalham com digital e têm essa preocupação em construir sites acessíveis.

Para ele, uma das principais barreiras para a aplicação da Lei Brasileira de Inclusão (LBI) no que diz respeito à acessibilidade em domínios .br é a falta de informação e de diretrizes específicas, assim como a falta de materiais em português como referência nesse processo de inclusão digital.

“Acho que ainda falta clareza na lei para que as pessoas compreendam o que precisa ser feito. Ao dizer que um site é ‘acessível’, parece que estamos dizendo que, ao apertar um botão, como num passe de mágica, tudo isso se resolve. Não é bem por aí. Se não disserem o que precisa ser feito, qualquer pessoa que ler aquela lei vai interpretar de uma forma diferente”, ressalta.

Em entrevista ao WPT, ele conta um pouco da sua trajetória profissional, do seu envolvimento com a causa e  do seu papel como embaixador do Web para Todos. Faz também uma análise sobre a aplicação da LBI e dá dicas de como podemos ajudar a construir uma internet mais inclusiva. Confira!

WPT – Como e quando você passou a se interessar pela área de tecnologia e percebeu que a internet não era inclusiva?
Reinaldo Ferraz – Tudo começou no final dos anos 90. Por volta de 1998, comecei a trabalhar na área de desenvolvimento web de forma profissional, mas já fazia sites pessoais e com trabalhos de faculdade desde 1996. Essa história de padrões não passava pela cabeça dos desenvolvedores nessa época, principalmente quando o Flash começou a dominar a web.

Desenvolvi muitos sites e aplicações que não levavam em consideração um público diferente do que eu conhecia. Até que, em 2004, comecei a trabalhar no NIC.br e passei a conhecer o conceito da acessibilidade digital pela Lêda Spelta, MAQ e Horácio Soares. Desde então, consegui perceber o quanto a web tinha barreiras de acesso e comecei a liderar iniciativas internas dentro do NIC.br para considerar a acessibilidade em seus sites.

WPT – Você se considera uma pessoa apaixonada pela acessibilidade digital? Por quê?
RF – Sem dúvida! Comecei a me envolver com acessibilidade em 2004, quando foi publicado o Decreto nº 5.296 em 2 de dezembro de 2004. Esse decreto dizia que os sites deveriam ser acessíveis para pessoas com deficiência visual. Como sou muito curioso, resolvi pesquisar e me envolver com o tema. Estudei bastante durante alguns anos. Foi aí que conheci as diretrizes de acessibilidade e os meus três mentores da acessibilidade na web, citados na resposta anterior. Eles abriram a minha cabeça e o meu coração para a enorme responsabilidade que os desenvolvedores têm ao cuidar de uma aplicação para que ela não tenha barreiras para pessoas com deficiência. Foi amor à primeira vista!

WPT – Como você se tornou especialista em acessibilidade no W3C? Isso fez com que você passasse a ser militante da luta por uma internet inclusiva?
RF – A partir de 2008, comecei a atuar de forma mais efetiva na acessibilidade digital. Quando o W3C lançou a segunda versão das Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web, as WCAG 2.0, eu estudei o documento de ponta a ponta. Cheguei a fazer um arquivo de 980 slides com todas as diretrizes e técnicas, o que me ajudou muito nas primeiras palestras. Em 2008, o NIC.br começou a hospedar um escritório do W3C no Brasil e, como esse era um tema requisitado para o escritório, comecei a dar palestras sobre o assunto. Até que, em 2011, fui chamado para fazer parte da equipe, trabalhando diretamente com projetos de acessibilidade na web.

Isso foi uma oportunidade incrível, pois eu podia trabalhar com um tema que eu amo, de forma profissional. Não era mais um projeto paralelo, nem um hobby. Eu tinha a missão de ajudar a disseminar o conceito de acessibilidade na web. Ficou muito mais fácil militar pela causa, podendo fazer algo de verdade, e não ficar apenas no discurso.

Penso que conseguimos avançar em alguns pontos, principalmente em conscientização. Produzimos cartilhas, criamos um prêmio de acessibilidade, ministramos workshops e palestras, além de criar artigos acadêmicos em conferências internacionais. Também aumentei muito a rede de contatos e percebi como a comunidade de pessoas envolvidas com esse tema cresceu.

WPT – Mesmo com a LBI, que torna a acessibilidade dos domínios .br obrigatória, o número de empresas que respeitam a lei é muito pequeno. O que é necessário fazer para mudar essa realidade?
RF – Acho que ainda falta clareza na lei para que as pessoas compreendam o que precisa ser feito. Ao dizer que um site é “acessível”, parece que estamos dizendo para que, ao apertar um botão, como num passe de mágica, tudo isso se resolva. Não é bem por aí. Se não disserem o que precisa ser feito, qualquer pessoa que ler aquela lei vai interpretar de uma forma diferente.

Também acho que faltam mais ações de disseminação de boas práticas e mais materiais em português. E não acho que seja só material técnico. Acho que é necessário sensibilizar diversos setores, especialmente o privado, sobre a importância da causa. Comparando com 2009, vejo que houve um grande avanço nesse sentido, mas ainda temos muito para fazer.

WPT – Você acredita que pode haver uma melhora desse cenário com o Movimento Web Para Todos ?
RF – O Movimento tem um papel importantíssimo como um grande hub de conteúdo e sensibilização sobre o tema. Ele não está reinventando a roda, mas ajudando as pessoas a encontrar materiais sobre um assunto que está espalhado pela internet. O papel de sensibilização do Movimento é fundamental, pois leva a discussão ao desenvolvedor que busca o conhecimento técnico e para o gestor que toma as decisões de considerar a acessibilidade nos projetos.

A mensagem que o Movimento leva é que a acessibilidade vai além do técnico. É uma questão de empatia. É você se colocar no lugar do outro e poder fazer pequenos ajustes que, na maioria das vezes, são simples para garantir que uma pessoa em diferentes condições consiga utilizar a interface digital de uma aplicação sem barreiras.

WPT – Como é a questão da acessibilidade digital em outros países? O que podemos aprender com eles?
RF – Percebo que as políticas de acessibilidade em outros países são mais severas. Grupos de pessoas com deficiência sabem dos seus direitos e se reúnem para exigi-los. Grandes nomes, como Apple e Beyoncé, sofreram processos devido a problemas em seus sites. Acho que é algo que devemos aprender no Brasil: exigir os direitos de acesso e reclamar quando uma barreira impede uma pessoa de consumir conteúdo.

O idioma também ajuda na questão de políticas de acessibilidade. Para um país com o inglês como língua nativa é muito simples um governo definir que os sites tenham que “seguir as WCAG” para serem acessíveis. A lei brasileira (LBI) não diz o que deve ser seguido, apenas que a acessibilidade é obrigatória “conforme as melhores práticas e diretrizes adotadas internacionalmente”. Isso deixa um amplo espaço para interpretação. Precisamos de documentos em português para que possam ser referenciados.

WPT – Qual é o seu sonho em relação à acessibilidade digital?
RF – Eu compartilho muito da visão do Movimento Web para Todos: adoraria que não fosse mais necessário discutir o assunto, pois ele já deveria fazer parte obrigatória do desenvolvimento de qualquer produto digital. Imagino que esse seja o sonho de todos os envolvidos com acessibilidade em geral. Que o desenho universal seja rotina tanto para a construção de um prédio quanto de um site.

*Repórter: Natalia Alcantara.
Edição: Elza Maria Albuquerque

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