Conheça a trajetória profissional da idealizadora do Web Sem Barreiras

Após começar a trabalhar com TI, Thabata Marchi criou o projeto Web Sem Barreiras para desmistificar a acessibilidade digital para cegos e surdos


Thabata está em pé, falando ao microfone. Ela tem cabelos lisos acima dos ombros, usa óculos. Há um homem sentado ao fundo, usando boné.
Thabata Marchi durante o 1° evento do Web Sem Barreiras. Foto: Priscila Lacerda

Uma publicitária que se apaixonou pela área de tecnologia. Mais especificamente pela acessibilidade na web. Esta é Thabata Marchi, embaixadora do Movimento Web Para Todos e criadora do Web Sem Barreiras que, em 2016, começou a refletir sobre como seu trabalho poderia ajudar pessoas.

Na época, lembrou de uma palestra sobre acessibilidade na web assistida três anos antes. Ela se sentiu inspirada a trabalhar com o tema e buscou ajuda de quem é mais atingido por essas barreiras. No começo, Thabata buscou um programador cego. Ao adquirir conhecimentos nessa área, percebeu que não sabia nada sobre como os surdos usavam a internet.

“O problema dos surdos é bem mais complicado em comparação com os cegos. Hoje temos ferramentas que ajudam pessoas com deficiência visual a acessarem sites e entenderem o conteúdo – se o site estiver acessível. Para os surdos, apesar de verem todo o conteúdo, atualmente somente 5% da população sabe ‘português’, pois a primeira língua do surdo é a Libras.

Dessa forma, é como se ele estivesse navegando em um site todo escrito em grego e, mesmo com aplicativos como o HandTalk, não é perfeito, pois, a inteligência artificial não tem expressão, ela traduz palavras e não o conteúdo completo. Os aplicativos ajudam muito os surdos que estudam ou sabem português, mas para quem sabe apenas libras, devido à falta de expressão corporal da inteligência artificial, não conseguem entender o contexto”, conta.

Ao se deparar com essas dificuldades, ela criou o projeto social Web Sem Barreiras para conectar profissionais da área de tecnologia com e sem deficiência e promover capacitação complementar.

Thabata e a acessibilidade

Conheça a história e o interesse de Thabata pela causa! Confira a entrevista que ela concedeu ao Movimento Web Para Todos.

WPT – Como surgiu seu interesse na área de tecnologia?
TM – No último ano da faculdade, uma amiga me deu um livro de HTML e CSS. Ao ler, me apaixonei. Tive a mesma sensação de quando revelei minhas primeiras fotos no químico, como se fosse mágica, uma página repleta de códigos que se transformava numa linda tela de um site.

A partir daí, comecei meus estudos na área de desenvolvimento. Após terminar a faculdade, fiz um curso no SENAC, arrumei emprego logo em seguida e deslanchei na área de TI.

WPT – Por que a internet precisa ser mais inclusiva e acessível?
TM – É uma obrigação que todos os sites sejam acessíveis. Conforme o criador da web Tim Berners-Lee: “O poder da Web está na sua universalidade. O acesso por todas as pessoas, não obstante a sua incapacidade, é um aspecto essencial”.

Quando falamos de sites acessíveis, não é algo que as empresas têm que levar como “estou praticando responsabilidade social” ou “estou sendo bonzinho”. As empresas precisam entender que a qualquer momento podem ser multadas por não deixarem seus sites acessíveis. Não devia existir barreiras de comunicação na internet ou em outros meios de comunicação.

WPT – Como surgiu o projeto Web Sem Barreiras? Qual é a atuação?
TM – O Web Sem Barreiras começou comigo, idealizadora do projeto. Eu sou desenvolvedora web e, em 2016, senti que gostaria de fazer algo a mais que não só o meu trabalho, poder ajudar as pessoas, fazer algo que me desse um propósito maior. Nessa reflexão, lembrei de uma palestra que assisti sobre acessibilidade na web em 2013.

Pensei: “Quero estudar e aprender mais sobre isso. Quero entender as dificuldades e barreiras que as pessoas com deficiência têm ao acessar a internet, mas não quero ler em livros ou buscar isso em milhares de vídeos e artigos. Quero isso na prática”.

Dessa forma, comecei a ir atrás das pessoas com deficiência, fazer entrevistas e entender mais sobre o assunto. Estava expert (especialista) em pessoas com deficiência visual, entendia as barreiras e como ajudá-las. Porém, não conhecia nada sobre surdos. Por isso, fui atrás de conhecer intérpretes que me mostrassem o mundo deles e também que me apresentassem a eles.

Conheci a Associação de Intérpretes e Surdos do Alto do Tietê. A partir disso, começamos a parceria e passei a conhecer os surdos. Nas minhas palestras, além dos meus amigos Danilo e Zé, chamava os surdos e intérpretes também para participar.

Eu queria muito mais para o ano de 2018. Meu objetivo era criar um evento que falasse apenas de TI e Acessibilidade, com foco em mostrar profissionais com deficiência para que eles nos ensinassem e compartilhassem conhecimentos da área. Em 4 de agosto de 2018, realizamos esse evento na cidade de Suzano-SP e foi um sucesso.

Foram pessoas de várias regiões do Brasil, de Santa Catarina, Rio de Janeiro e interior de SP. Tivemos mais de 100 participantes! Foi um evento que durou 10 horas. Muitos falaram “está parecendo um Congresso e não apenas um evento”. Foi lindo e eu fui entrevistada pela TV Diário, além de diversas mídias de comunicação da região.

Foi preciso escolher um nome para esse evento. A partir disso, com os preparativos em fevereiro de 2018, surgiu o Web Sem Barreiras. Ele acabou se tornando uma comunidade forte com muitas pessoas com e sem deficiência trabalhando juntas pela inclusão.

Depois disso, começamos o curso de criação de sites para surdos com o apoio do SASPE e da Prefeitura de Suzano. Eles cederam o espaço e os intérpretes, eu ministrei o curso e foi uma experiência incrível. Comecei a aprender Libras só de conviver com eles durante o curso.

WPT – Quais são as principais necessidades e barreiras que os surdos encontram ao acessarem a web?
TM – As pessoas surdas assim como pessoas com outras deficiências fazem parte da organização do Web Sem Barreiras e estão sempre ativas, com a criação e a execução das iniciativas do projeto. O desafio dos surdos é bem mais complicado que os cegos. Hoje temos ferramentas que ajudam os cegos para que acessem os sites e entendam os seus respectivos conteúdos – se o site estiver acessível.

Para os surdos, apesar de verem todo o conteúdo, atualmente somente 5% da população sabe “português”, pois a primeira língua do surdo é a Libras. Dessa forma, é como se ele estivesse navegando em um site todo escrito em grego, e mesmo com aplicativos como o HandTalk, não é perfeito, pois, a inteligência artificial não tem expressão, ela traduz palavras e não o conteúdo completo.

Os aplicativos ajudam muito os surdos que estudam ou sabem português, mas para quem sabe apenas libras, devido a falta de expressão corporal da inteligência artificial não conseguem entender o contexto.

WPT – Qual é a importância das ações realizadas pelo Movimento Web Para Todos? E que outras ações ou iniciativas podem ser realizadas para promover uma web mais acessível?
TM – O WPT é importantíssimo e deve percorrer não só o Brasil, mas o MUNDO. Devemos inspirar pessoas. Infelizmente, não é a realidade de muitos e, por isso, as pessoas se surpreendem quando conhecem o movimento pela primeira vez.

Acredito que o WPT tem que mostrar cada vez mais que existem muitos consumidores PCDs que as empresas estão perdendo. Mostrar para as empresas que não é “caridade”, mas obrigação que deixem os sites acessíveis.

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