Como a inteligência artificial está transformando a acessibilidade e o futuro da web


foto de um robô humanoide e uma jovem mulher sentados lado a lado em uma mesa, de frente a um notebook. Ambos estão se cumprimentando com punhos fechados (dando o que chamamos de "soquinho"), numa interação colaborativa. Estão em um ambiente interno com janelas grandes com cortinas azuis e plantas, compondo um cenário confortável e contemporâneo.

Por Edemar Santos, Mileide Moreira e Muriel Xavier*

No encerramento das atividades de 2025, a Liga Voluntária do Movimento Web para Todos promoveu um encontro fundamental para debater as fronteiras da tecnologia. Reinaldo Ferraz, embaixador do WPT e uma das maiores referências em acessibilidade digital no Brasil, esteve com o grupo para um bate-papo sobre as tendências que prometem revolucionar a forma como consumimos conteúdo digital.

Recém-chegado de um evento global do W3C (World Wide Web Consortium) no Japão, Reinaldo trouxe revelações valiosas sobre como a inteligência artificial (IA) pode ser o motor de uma web mais inclusiva, mas também sobre os cuidados éticos e técnicos que essa transição exige.

Reinaldo é formado em desenho e computação gráfica, com pós-graduação em design de hipermídia pela Universidade Anhembi Morumbi. Atua no desenvolvimento web desde 1998, coordena as iniciativas de acessibilidade na web do NIC.br e é autor de quatro livros. Além disso, representa o Brasil em grupos de trabalho internacionais do W3C em áreas como Web das Coisas e Publicações Digitais.

A revolução dos agentes de IA e o fim da navegação tradicional

Um dos pontos centrais da conversa foi a mudança de paradigma na navegação. Segundo Reinaldo, estamos saindo da era dos buscadores de links para a era dos “agentes de IA”. Ele pontua que a inteligência artificial já faz parte da nossa rotina. “Desde a criação das páginas HTML até o surgimento dos buscadores, percebemos que a forma como buscamos informações está mudando radicalmente. Agora, a pessoa não acessa necessariamente o link das páginas utilizadas como referência pela IA, mas o resumo que ela traz”, explica Reinaldo.

Para ele, a grande perspectiva para o futuro são os agentes de IA, que são responsáveis por ações específicas no universo online, como se fossem assistentes. Por exemplo: em vez de você entrar em um site, pesquisar e preencher dados, poderá simplesmente solicitar que o agente compre um livro ou uma passagem aérea para determinado dia e local. Todo o trabalho de pesquisa e efetivação da compra será feito por ele. A expectativa é que os próprios navegadores tenham seus agentes de IA integrados para facilitar essa interação.

A “dúvida que paira no ar” é como essa mudança de perfil influenciará o conteúdo que é publicado na web. Para Reinaldo, quanto mais completos e bem estruturados estiverem os sites, mais fácil será para os agentes de IA os utilizarem como fonte principal. Segue a mesma lógica do que vemos hoje com o SEO (Search Engine Optimization).

IA se alia à acessibilidade

O avanço da IA tem gerado debates intensos sobre a automação de processos de acessibilidade. Reinaldo destaca a tecnologia como uma ferramenta complementar que potencializa o que já existe. “Hoje já temos provas claras de que a IA não substitui o trabalho humano. Ao gerar um texto por IA, por exemplo, a revisão é fundamental. A IA tem um potencial gigante para ajudar nos testes de código e na aplicação de normas, como as da ABNT. Mas o olhar humano é o que garante a qualidade e a empatia da comunicação”, explica Reinaldo.

Ele acredita que a IA beneficia a acessibilidade em vários aspectos. Até por uma questão de competitividade, os sites tenderão a tornar o conteúdo mais acessível para a própria IA ler, o que exige textos claros, páginas bem estruturadas e semântica adequada.

O benefício é enorme para pessoas usuárias. Quem tem deficiência visual poderá perguntar para o agente sobre detalhes de imagens complexas; quem tem mobilidade reduzida poderá realizar compras sem precisar clicar em inúmeros elementos pequenos na tela, entre tantas outras possibilidades.

Novas fronteiras: credenciais verificáveis e o cenário global

Durante sua participação na Plenária Técnica do W3C no Japão, Reinaldo observou discussões que vão além da interface. Um tema muito interessante que ele contou para o grupo da Liga foi sobre “credenciais verificáveis”. 

“Imagine um ‘Gov.br global’, onde as pessoas teriam documentação online para verificar sua identidade em qualquer lugar do mundo. Isso abre portas para acessibilidade, mas também amplia debates complexos sobre segurança, privacidade e proteção de menores de idade”, conta.

Revisão humana é indispensável

A inteligência artificial abre caminhos sem volta para a inclusão digital, permitindo formas variadas e personalizadas de consumo de produtos e serviços. No entanto, como destacou Reinaldo, a busca pelo conhecimento em fontes especializadas e a avaliação crítica dos conteúdos produzidos por ferramentas automatizadas continuam sendo responsabilidade das pessoas.

A tecnologia deve ser vista como um meio para remover barreiras, mas a garantia de que ninguém fique para trás ainda depende de diretrizes éticas e da supervisão de profissionais qualificados. Acessibilidade digital é, acima de tudo, sobre pessoas e empatia.

*Edemar Santos, Mileide Moreira e Muriel Xavier são integrantes da Liga Voluntária do Movimento Web para Todos.


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