A importância do tema de redação do Enem para a acessibilidade dos surdos nas universidades


Foto de um grupo de estudantes sentados em carteiras, fazendo prova do Enem.
Participantes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Foto: Por Wilson Dias/ABr – , CC BY 3.0 br,

No domingo (05/11), o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2017 foi “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”, e houve grande repercussão de especialistas, alunos, professores e sociedade em geral.

Para nós, do Web para Todos, ter um tema como esse em destaque no Enem é um grande avanço para a educação dos surdos no Brasil. Importante, principalmente, como forma de atrair a atenção para que a sociedade entenda um pouco mais sobre a realidade desse público.

Para Lucinea Marcelino Villela, coordenadora do Grupo de Mídia Acessível e Tradução Audiovisual (MATAV) da UNESP, a ação foi relevante e pode trazer consequências positivas. “Fiquei muito feliz, mas estranhei os próprios professores dos cursos preparatórios ficarem tão surpresos com o tema. Temos mais de 45 milhões de pessoas com deficiência no Brasil e 7 milhões delas têm deficiência auditiva. Apesar de não darem aulas específicas, a inclusão dessas pessoas precisa ser um tema estudado nos cursos”, defende.

“Com a prova, mais de 6 milhões de estudantes pararam algum tempo para pensar a respeito da inclusão das pessoas com deficiência auditiva no ambiente escolar. São pessoas que costumam ser invisíveis pela sociedade e, agora, graças à prova, tiveram um destaque. A surdez é uma deficiência invisível – pessoas com mobilidade reduzida ou cegas acabam tendo suas respectivas deficiências mais percebidas pela sociedade”, conta.

Segundo Lucinea, o próximo passo é trazer esse tema para que as universidades mantenham os alunos nesses espaços, com estrutura para uma educação igualitária. Como exemplo, ela destaca o trabalho que realiza no MATAV da Unesp.
“Eu e meus alunos do MATAV ficamos anos pensando, debatendo, legendando e criando alternativas para uma vida feliz e justa para surdos em muitos ambientes. Dentre eles, a universidade. Nossa ex-aluna, Ana Raquel Périco Mangili, também sempre nos provocou para oferecermos quatro anos de um ambiente acadêmico minimamente igualitário para ela. Neste ano, realizamos a primeira colação de grau da Unesp com legendas ao vivo e intérprete de Libras”, detalha.

Universidades acessíveis

A história da Ana está na série de documentários “Inclusive Elas”, desenvolvida em 2015, por meio do projeto Observatório de Educação (OBEDUC), com orientação direta de Lucinea. As entrevistas buscam explorar a acessibilidade no ensino superior, e todas elas receberam os recursos de audiodescrição (AD) e legendagem para surdos e ensurdecidos (LSE). No episódio específico sobre Ana Raquel, ela conta sobre sua trajetória desde o nascimento até sua passagem pela universidade, explorando alguns desafios em relação à acessibilidade no ensino superior.

Em setembro, o movimento Web para Todos divulgou sua primeira “análise das barreiras tecnológicas em sites brasileiros”. O segmento escolhido foi o da Educação. Ao todo, foram analisados os sites das 10 melhores universidades e escolas de ensino médio do País, de acordo com o último ranking divulgado pelo MEC (2015). O objetivo da iniciativa é mostrar que o caminho para uma internet acessível não é complicado ou impossível, como muitos pensam.

Algumas universidades e escolas de ensino médio que tiveram seus sites analisados pelo movimento parecem estar caminhando em direção a isso, mas ainda há muito trabalho pela frente. Um ponto que chamou a atenção da equipe de avaliadores foi que praticamente todos os vídeos ou áudios contidos nos sites analisados não possuem alternativa em texto. Os poucos que possuem, omitem trechos importantes. Em nenhum deles há audiodescrição (narração das imagens de um vídeo) nem tradução para Libras (Língua Brasileira de Sinais), o que para cegos e surdos é uma grande barreira tecnológica.

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