Idealizadora do WPT participa do programa Conexão do canal Futura


Três pessoas sentadas lado a lado em cadeiras separadas. Da esquerda para a direita, Karen de Souza, Simone Freire e Marcos Silva. Ambas olham para o lado direito, em direção ao Marcos.
Simone Freire durante o Programa Conexão do Canal Futura. Foto: Reprodução do vídeo.

No dia 15/01, Simone Freire, idealizadora do Movimento Web para Todos, teve a oportunidade de participar do Programa Conexão, do Canal Futura, ao lado do Marcos Silva, palestrante e youtuber. Eles conversaram com a apresentadora Karen de Souza sobre “Acessibilidade no mundo virtual”.

Acompanhe, abaixo, a entrevista que nós transcrevemos.
O vídeo completo está no site do Futura Play. Assista e conte pra gente o que achou!

Karen de Souza
Olá! Este é o Conexão. Segundo o IBGE, o Brasil tem mais de 6 milhões de pessoas com alguma deficiência visual, 582 mil são cegas e 6 milhões têm baixa visão. Quando a gente pensa em internet, o número de brasileiros conectados aumentou em 10 milhões de pessoas um ano, segundo a PNAD Contínua.

Você já parou para pensar como pessoas com deficiência visual acessam a internet? Será que a grande rede é inclusiva?

Nós vamos conversar hoje com Marcos Lima, que é youtuber e palestrante, e com Simone Freire, que é idealizadora do Movimento Web para Todos. E vamos tentar descobrir qual é essa resposta.

Quero justamente começar com o Marcos. Marcos, obrigada por sua participação aqui com a gente. A internet é inclusiva?

Marcos Silva
Não. A internet ainda não é inclusiva. A internet, como muitos aspectos na vida que a gente tem que enfrentar, ela é muito visual. A nossa vida é muito visual. Então, nós, que somos cegos, temos que correr muito atrás ainda para romper as barreiras do visual e a internet está dentro disso. Mas está melhorando.

Karen de Souza
Eu gosto de gente positiva assim. Consegue ver possibilidades!

Marcos Silva
Eu não enxergo, mas vejo tudo positivo.

Karen de Souza
Simone, relatos – como o do Marcos – devem ter meio que dado um start para você começar o seu projeto no Movimento Web para Todos, não é?

Simone Freire
É. É que o Marcos é bem positivo. Porque os dados mostram e há estimativa do W3C, uma entidade global que traça as diretrizes da internet no mundo todo, que 95% dos sites no Brasil não estão preparados para a navegação de pessoas com deficiência, de uma maneira geral. Se considerar que a gente tem uma população estimada em 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, 6 milhões com alguma deficiência visual, e quase 600 mil de cegos, e existem 95% das páginas que não são acessíveis, temos um cenário bem pessimista.

E isso, sem dúvida, me motivou a criar o Movimento para fazer essa transformação digital. Porque a tecnologia é importante para todo mundo. Essa grande parcela da população não tem acesso.

Karen de Souza
Dá até um nervoso, Marcos. Porque, se você for parar para pensar, quase tudo você resolve pela internet hoje. O que hoje ainda não dá para você fazer? A gente sabe que você é youtuber, palestrante, e você lida com a rede dentro da sua possibilidade e usa muito bem. O que ainda não dá para você fazer na internet por causa da sua deficiência?

Marcos Silva
Olha, a Internet é a minha ferramenta de trabalho e, como você falou, a gente resolve muita coisa pela internet. Pagar uma conta pela internet é uma coisa que não posso fazer. Como eu vou pegar o boleto? Eu não consigo fazer pelos meios que eu tenho.

As pessoas com deficiência usam diferentes caminhos. Tem gente que usa determinados tipos de aplicativos, tem gente que usa leitor de tela pelo computador. A gente vai cavando soluções para tudo. Eu nem me considero um usuário hard, no sentido de ser mais esperto não. Pelo contrário.

Eu uso muito a internet para meios de informação, porque eu sou jornalista, gosto muito de ler. Os problemas começam quando temos que interagir com a internet. Enquanto a gente está interagindo com a internet de um modo passivo, até vai. Mas quando começa a ter que interagir com os sites, preencher ou se cadastrar ou pagar uma conta, enfim, a gente começa a ter as dificuldades.

Karen de Souza
Entendi. É isso também que você percebe das outras pessoas que trabalham com você, Simone? Essa questão da interatividade, que é a coisa mais vendida pela internet acaba não chegando para quem tem deficiência?

Simone Freire
Exatamente. E isso acontece, Karen, principalmente porque as pessoas que estão desenvolvendo os sites, os profissionais que estão na área de marketing digital – sejam eles desenvolvedores, designers, ou produtores de conteúdo não têm conhecimento dessa necessidade. Que é preciso, sim, trabalhar o código de uma maneira diferente, pensar em um layout, por exemplo. O Marcos aqui é cego, mas há pessoas com baixa visão, com daltonismo, que têm outros tipos de deficiência visual – cada um tem uma peculiaridade na hora de desenvolver.

Karen de Souza
A gente está vendo o site do Movimento Web para Todos. Conta pra gente: hoje, quais são as frentes de vocês. Eu acho que vocês trabalham muito com a questão da sensibilização para a bandeira, para a pauta.

Simone Freire
É. A gente fala que o nosso propósito é criar a cultura da acessibilidade digital no Brasil. O nosso sonho é que a gente espera que ele não seja mais sonho; que, em dez anos, ele não exista, que a web seja realmente inclusiva para todo mundo. Trabalhamos em frentes. Uma delas é a mobilização, que é sensibilização. No ano passado, foram quase 50 palestras em universidades, empresas. Estamos fazendo esse trabalho muito forte de sensibilização a partir de educação. Foi como eu falei: o grande problema está nos profissionais que estão desenvolvendo.

Estamos levando essa informação, esse conhecimento técnico para que a gente mude essa realidade. E, na outra ponta, a gente tem a transformação, que é promover hackathons, para que os profissionais entendam na prática. As pessoas com deficiência realmente protagonizam o Movimento.

Assim como o Marcos vai dar uma palhinha, vai mostrar essa questão da navegação, é importante que a sociedade entenda as necessidades práticas das pessoas com deficiência. O Movimento também tem esse papel de empoderar as pessoas com deficiência nessa navegação na internet. É um trabalho lindo.

Karen de Souza
Com certeza é muito importante. Marcos, me conta uma coisa: quando você decidiu ser palestrante e como é que você decidiu também ir para o YouTube? Foi tudo ao mesmo tempo?

Marcos Silva
Não. Na verdade, eu sou formado em jornalismo, mas costumo dizer que, de coração, sou um comunicador. Eu acredito na comunicação como uma forma de quebrar barreiras e aproximar as pessoas. Eu vejo que existe um desconhecimento muito grande sobre a pessoa com deficiência. Comecei a dar palestras, a ser convidado para um lugar, para o outro, a palestrar em universidades e comecei a gostar disso. Eu tinha dois blogs que morreram e eu falei: “Cara, já que eu faço palestras e as pessoas gostam, acho que o YouTube pode ser uma boa ferramenta”.

Karen de Souza
A gente está até vendo a capa ali do seu canal. É o Histórias de Cego, né?

Marcos Silva
É o Histórias de Cego. Ele começou em novembro de 2016 e eu nunca imaginei que um dia eu fosse ter um canal com quase 4 milhões de visualizações. É uma honra enorme e uma responsabilidade muito grande porque o que eu busco com o canal é aproximar as pessoas, mostrar que a deficiência visual nos explica, me explica em alguns aspectos mais por causa da falta de acessibilidade e o excesso de preconceito. Mas a cegueira não define a gente como pessoa. Somos mais coisas. Além de cego, temos muitas outras características. É isso que eu busco aproximar. Ter diálogo com as pessoas, eu procuro responder todos os comentários. Às vezes recebo muitos, mas fico muito feliz com essa interação. Muitas crianças participam com perguntas. E a gente começa a responder o que as pessoas querem saber. “Ah, cego vê tudo preto?”.

Karen de Souza
Devem ter muitos tipos de perguntas assim, né?

Marcos Silva
Tem! Tipo assim: “Você fecha o olho quando dorme?”

Karen de Souza
A gente está vendo o vídeo que você falou como vocês enxergam os emojis.

Marcos Silva
Isso.

Karen de Souza
Daqui a pouquinho a gente vai ver até o outro trecho de outro vídeo também. Como você define as pautas dos seus vídeos?

Marcos Silva
Olha, eu busco muita interação com as pessoas que assistem. Porque o canal, Karen, só tem uma função se for um diálogo com as pessoas. Por que existe o preconceito? Preconceito é o pré-conceito. É um conceito anterior. É a falta de conhecimento. Se você não conhece uma pessoa, você não sabe como se aproximar, não sabe como conversar. Olha que coisa triste você não se aproximar de uma pessoa porque você não sabe como conversar com ela! Olha quanto preconceito tem em uma atitude dessa. E preconceito não significa maldade. Quer dizer falta de conhecimento. Eu busco fazer com que esse conhecimento chegue nas pessoas de uma forma leve. O objetivo do canal é esse. É mostrar: “A gente só é cego. A gente faz um monte de coisa. Faço um monte coisa, tenho um monte de qualidade, tenho um montão de defeitos. Nós somos pessoas. E tudo o que vocês acham que é super complicado pra gente, às vezes não é.

Karen de Souza
Eu acho que realmente essa questão da troca faz muita diferença, não é? Eu quero então assistir a um trecho de um de seus vídeos pra gente ter uma ideia de qual é o tom que o Marcos usa no YouTube. Vamos ver.

[imagem e trecho de um vídeo]
Imagem mostra um vídeo de uma criança cambaleando e caindo no chão, com o texto: “7 – Cego não tem medo de altura”.

Imagem com Marcos falando:
Você já viu cego ter medo de altura? O cara chegar no alto e dizer: “Ai, as pessoas lá embaixo estão pequenininhas!”. Isso é uma grande vantagem. Já pulei de asa delta, já esquiei, porque pra mim tudo dá no mesmo. 20 metros, 200 metros é tudo igual. É tudo alto!

GIF do ator Tom Hanks de terno, com os olhos quase fechados falando “Oh!” E o texto: “Really?”

Música com imagem de um cachorro sentado em uma cadeira de escritório, como se tivesse mãos de um ser humano, segurando um celular ao lado da orelha. A outra mão segura uma caneta. Em frente, há uma mesa com caderno aberto próximo a ele. Há o texto: “6 – Usar o celular escondido”.

Vídeo do Marcos falando:
“Usar o computador ou o celular debaixo da mesa. Isso vale muito para aquelas reuniões chatas, intermináveis que fica lá do lado da mesa. Você não pode nem prestar atenção no PowerPoint porque tem aquelas setinhas, aqueles gráficos. Você não está vendo nada. Então começa a dar um sono, uma vontade imensa de dormir. Aí você pega o celular, põe embaixo da mesa. Ninguém vai imaginar que você está digitando, aí você pode assistir Netflix, pode falar no WhatsApp.”

Música com imagem de uma mulher fazendo cara de nojo, parecendo estar quase vomitando. E o texto: “5 – Cego não tem nojinho visual”.

Vídeo do Marcos falando:
Nojinho visual: ta aí uma das melhores vantagens. Eu me amarro em comida, me amarro em comer bem, me amarro em provar coisas boas. Não sou preso por “Ai, essa língua é nojenta!”, “Ai, dobradinha!”. Quantas coisas você não come porque acha que são feias? Dobradinha, língua, mocotó, bucho…Eu como sem achar feio ou bonito. Pra mim, a língua é igual a um bife. Próxima vez, fecha o olho e come. Vai dar certo!

Karen de Souza
Marcos, a gente estava falando aí no início. É justamente essa aproximação que é super necessária. E eu tava falando fora do ar que, às vezes, eu, por exemplo, tenho um monte de dedos [para falar]. Porque a gente tem medo mesmo é de magoar a pessoa. O teu propósito então é quebrar essas barreiras e realmente fazer com que as pessoas entendam que todo mundo é igual, né?

Marcos Silva
É. Porque as pessoas acham, Karen, que a minha vida é triste. Eu faço palestras para crianças, já escutei de crianças se eu já tinha pensado em me matar. Imagina escutar isso de crianças de 10, 11 anos! Porque, para eles, a vida sem enxergar: você não joga videogame, você não joga bola na rua, você não faz um monte de coisa. E o que eu quero mostrar é justamente isso. A gente faz um monte de coisa. E esse vídeo é muito bacana porque ele quebra um pouco aquilo de: “ah, sou cego, sou triste”. Não! Tem dez momentos em que até você iria querer ser cego. Porque a pessoa fala: “Não, mas como assim?” E as pessoas duvidam que eu sou cego. “Você é cego mesmo?”

Karen de Souza
E trocam o papel. Invertem o papel também,né?

Marcos Silva
Isso.

Karen de Souza
Você vê os benefícios que você tem, em detrimento dos nossos.

Marcos Silva
Porque dificuldade todo mundo já sabe ou deveria saber. A gente vive em um mundo muito visual mesmo e tenho um montão de dificuldades. Mas se eu ficar chorando por elas, o mundo vai passar e ninguém vai resolver. A gente tem que ir atrás de resolver. O YouTube é uma forma excelente de falar com as crianças. Eu já recebi muitos comentários delas. Isso é muito impressionante pra mim. De mães também.

Acabo atingindo mães de pessoas com deficiência ao longo do Brasil, que é grande. As mães falam: “Ai, vendo você eu sinto que meu filho tem um futuro”. Gente, isso é tão lindo. Você fazer o bem para pessoas que você nem conhece! Outro dia, uma mãe deixou um comentário para mim. “Meu filho tem cinco anos. Ele tem uma doença grave no coração, e ele assiste o seu canal. E hoje ele veio me dizer que, quando ele vê você, ele sente que pode fazer tudo. Imagine o que isso significa para uma família! E passar a mensagem positiva também é algo que me faz muito bem e espero fazer bem para as pessoas também.

Karen de Souza
Que ótimo, né? Autoestima. E com certeza já está recebendo o feedback, né? Simone, qual é a importância de ações como essa? A gente fala também de lugar de fala. Ouvir da pessoa que é cega é super importante. Isso deve ajudar até no Movimento também, não é?

Simone Freire
Sim. As pessoas com deficiência têm esse lema: “Nada sobre nós, sem nós”. É um movimento bem forte mundialmente. E acho que é isso mesmo. Eu até participei de um debate recentemente que foi bem interessante. Era um debate de mulheres empreendedoras e tinha uma negra, uma mulher obesa, uma trans e eu. E aí rola um preconceito inverso. As três olharam pra mim e falaram: “Qual é a sua deficiência? Porque você está aqui representando a pessoa com deficiência? E a gente não está vendo nenhuma deficiência aparente.

É bem interessante porque a minha história começou trabalhando com pessoas com deficiência. Eu tive essa empatia, essa sensibilidade, me casei com um cadeirante, inclusive, um tetraplégico. O lugar de fala é extremamente importante, mesmo eu não tendo deficiência nesse sentido, tenho outras deficiências, como todo mundo. É imprescindível trazer e colocar o Marcos para falar e todas as pessoas que sentem na pele essa questão da barreira atitudinal, a barreira arquitetônica, do Marcos chegar em um lugar e não conseguir interagir porque ele não tem acesso ao espaço. Na web, isso sim é muito difícil.

Karen de Souza
É muito importante citar e falar sobre isso. Eu até gostaria de mostrar o trabalho de outra youtuber, que fala de questões relacionadas aos deficientes visuais também na rede. É a Vanessa Bruna do canal “Cego em Ação”. E, nesse vídeo, ela explica como é ser cega e garantir a própria independência.

[vídeo da Vanessa Bruna falando – ela é negra, tem cabelos encaracolados, que estão presos para cima, em formato de coque]

“Não é porque eu preciso de ajuda para atravessar a rua que eu perdi a minha independência. Não é porque eu preciso de ajuda para pegar um ônibus, que eu perdi a minha independência. Não é porque em algum momento que eu precise que alguém me ajude que eu perdi a minha independência. Eu tenho independência sim. No momento em que eu decido as coisas que eu quero ou não quero; que eu decido dentro da minha casa, dentro da sociedade, dentro de todos os âmbitos sociais em que eu tenho a minha decisão, eu sim, sou independente. Eu me acho independente. De uma forma muito rápida eu conquistei tudo isso. Eu já venho comentando isso com vocês porque não era orgulho, não era nada disso. Muito pelo contrário. Porque eu tenho uma irmã linda, e se eu precisasse muito dela, ela estaria totalmente disposta pra mim. Eu tenho um marido lindo que também estaria disposto. Só que eu sou uma pessoa que só perdi a minha visão. Eu falo isso o tempo todo. Quando alguém começa a falar, eu falo: “Eu só sou cega. O resto de todo o meu corpo funciona”. Então eu consigo organizar tudo, programar tudo, apesar de depender de algumas ajudas em alguns momentos. Mas eu não perdi a minha independência por isso.”

Karen de Souza
Ela fala, Marcos, no início do vídeo, eu até queria perguntar para ver se você sente o mesmo. Todos nós, de alguma maneira, precisamos da ajuda de alguma pessoa durante o nosso dia todo. Você vai em algum lugar, você vai comprar alguma coisa em alguma loja, você precisa da atendente para entregar alguma coisa na sua mão, ela vai fazer. Dando vários exemplos e mostrando, no final, a independência que ela tem igual a nossa. Eu queria saber isso na sua opinião, Marcos. Você sente isso também em relação à independência? As pessoas sempre acham que você vai precisar de alguém para fazer qualquer coisa?

Marcos Silva
Sim. Eu sinto muito isso até pelos comentários que eu tenho no YouTube. As pessoas perguntam: “Você troca de roupa sozinho?”. As pessoas acham que eu não faço absolutamente nada sozinho. E é todo dia. Vindo pra cá, o taxista perguntou: “Você vai sozinho?” Eu falei: “Sim, sou vacinado, tenho mais de 18 anos. Pode deixar que o senhor está seguro”. As pessoas questionam muito isso. Não é por mal. É justamente porque elas não têm esse conhecimento. Não têm essa convivência. Eu sempre falo o que a Simone acabou de falar: “Deficiência depende do ponto de vista”.

Se você chega aqui hoje, Karen, para apresentar o programa, e a cadeira ficar a um metro e meio do chão, você conseguiria sentar nela? Não ia. E ia ser culpa sua? Não ia. Ia ser culpa da cadeira que não ia atender as suas necessidades. E assim é o mundo. O nosso mundo é um mundo muito visual, mas ele é assim porque acabou se desenvolvendo dessa forma. E se ele não fosse assim? Se ele fosse de outro jeito? E se enxergar fosse um problema? Como a gente define o que é deficiência? A minha deficiência só é muito aparente porque a gente vive em um mundo muito visual. Mas quem não tem deficiência? Sempre nas minhas palestras pergunto: “Quem não tem deficiência?” Primeiro, todo mundo diz que não tem deficiência. Depois eu mostro que todo mundo tem sim. Tem muito o que desenvolver, né?

Simone Freire
Uma coisa interessante é esse conceito que o Marcos trouxe. O que torna uma pessoa “deficiente”. É um termo que a gente nem usa, mas é o entorno. Se você dá condições para uma pessoa, independentemente da pessoa ter ou não, mas perto do outro de igualdade do outro, a deficiência acaba sendo uma questão ali física, pontual e não vai ser isso que vai limitar o acesso dessa pessoa à sociedade.

Karen de Souza
Eu queria que o Marcos compartilhasse com a gente o que você já compartilhou fora do ar. Como você usa o seu celular? Quando lançaram a tela touch, você ficou preocupado. Por quê?

Marcos Silva
Isso. Porque tem o celular que não tem botão nenhum. O meu microondas não tem botão nenhum e eu não consigo mexer. Então porque no celular eu iria conseguir? Eu uso o fone por dentro da blusa. Ele fica sempre aqui. O celular no bolso, o fone aqui. Eu uso com a tela desligada. Outro dia eu estava no metrô e um senhor queria pegar o celular da minha mão e falou: “Você está usando o celular desligado” Eu falei:”Não, a tela só que está desligada porque dá para economizar a bateria”. É um celular normal. Quando eu for na loja comprar, eu não falo que sou cego. Se você tem um smartphone na sua casa, você pode acionar ele, entrar nas opções de acessibilidade e terá o celular acessível. Cuidado que, às vezes, as pessoas confundem na hora de tirar da acessibilidade. Mas vou colocar um pouquinho para vocês escutarem. Eu escuto em uma velocidade muito rápida. Vou colocar primeiro na velocidade que eu escuto.

[voz de mulher falando muito rápido]

Karen de Souza
Gente, ele está entendendo o que o celular está falando pra gente.

Marcos Silva
Estou acessando meu canal no YouTube aqui.

Karen de Souza
Agora coloca em uma velocidade que a gente consiga entender.

[fala rápida da voz do leitor de tela que sai do programa no celular]

Karen de Souza
Ah, 45% é a velocidade!

Marcos Silva
É velocidade pra você dormir. Nossa! Se eu escutar assim, eu durmo. Vou colocar aqui nos meus vídeos. Abrir navegação. [Marcos fala lentamente, repetindo o áudio do celular]
Uma das vantagens de você ser cego é poder escutar rápido.

Karen de Souza
Você pode colocar igual fez naquela hora? Só os nomes dos aplicativos que aparecem na sua tela?

Marcos Silva
Posso. WhatsApp, Pasta Store, Tempo, Pasta multimídia, Gravador, Skype… [Marcos repete o áudio do celular]

Karen de Souza
E quando você quer saber a hora?

Marcos Silva
Mas vai falar a hora aqui: 16h51. Mas eu não uso assim não.

Karen de Souza
Entendi. Você é acelerado. Esse tipo de equipamento, de software é o que resolve pra você conseguir utilizar e até postar seus vídeos no YouTube?

Marcos Silva
É. Quando lançou o celular touch, eu pensei: “É o fim do cego usando o celular”. A gente usava celular de botão e instalava programas. E este celular é a coisa mais acessível que eu já tive na minha vida. E não só eu digo isso. Todas as pessoas cegas também. Não só eu uso na velocidade rápida, mas todas as pessoas cegas usam na velocidade rápida porque a gente já está acostumado. E eu faço faço tudo nele. Converso com pessoas no WhatsApp que não têm a menor ideia de que sou cego, posto meus vídeos, algumas vezes eu mesmo gravo, porque quando aponto, ele vai dizendo: “O rosto, me diz se eu estou certinho apontando, porque cego filmando é aquilo, né? Eu mesmo respondo os comentários. Muita gente pergunta no meu canal: “Quem responde os comentários?” Eu digo para eles: “Eu mesmo respondo”.

Karen de Souza
Ainda falando desses aplicativos e ferramentas para auxiliar as pessoas com deficiência, a gente tem outro ótimo exemplo, que é do Marco Antônio Penha. Ele, juntamente com outros universitários, criou um dispositivo que ajuda na locomoção de pessoas cegas. Os óculos que eles criaram são equipados com sensores de ultrassom que identificam obstáculos que podem estar pelas calçadas: orelhões, caçambas, por exemplo. E e eles emitem um sinal de alerta e evitam os acidentes. Esse produto já ganhou sete protótipos e agora é equipado com GPS que indica os obstáculos. E esse equipamento está em estruturação para chegar ao mercado. Você já ouviu falar desse óculos, Marcos?

Marcos Silva
Já ouvi falar sim.

Karen de Souza
E você acha uma boa o desenvolvimento dessa ideia? Justamente para evitar esses acidentes?

Marcos Silva
Com certeza, Karen. A gente usa bengala na rua. Bengala é um negócio sem tecnologia nenhuma. Ela é de alumínio, mas eu costumo fazer uma comparação que a gente anda de bengala como se estivesse com um pedaço de madeira arrastando, torcendo para ele bater primeiro no obstáculo do que na gente. É basicamente isso. A tecnologia precisa chegar nisso também. E tem obstáculos aéreos: orelhões, os obstáculos que, às vezes, a bengala não consegue sentir. Então qualquer solução tecnológica é o futuro. Assim como a tecnologia abriu as portas para que eu usasse um celular touch, por que ela não abriria as portas para andar na rua?

Karen de Souza
Com certeza. E andar também pela internet, né? A gente está chegando na parte final do programa e eu queria saber, Simone, na sua opinião, o que precisa ser feito ainda? Você já faz seu trabalho de sensibilização, mas é um absurdo que somente 5% dos sites tenham essa preocupação. Há tanta informação por aí. O que precisa ser feito para que a internet se torne acessível para quem é cego?

Simone Freire
Vários aspectos. Legislação a gente já tem, a Lei Brasileira de Inclusão que traz um artigo que obriga a acessibilidade de páginas web no Brasil. A sociedade está acordando para essa questão. Cada vez mais a gente está falando de diversidade, de inclusão. As pessoas com deficiência têm protagonizado muito mais histórias nos canais de TV. Na minha opinião, falta a conscientização de quem está trabalhando diretamente com a internet. Quem produz. É ali que está a raiz do problema.

Karen de Souza
E na sua opinião, Marcos?

Marcos Silva
Na minha opinião, as pessoas precisam entender que, não só na internet, mas em tudo, nós somos consumidores. Você está falando de um público de seis milhões de pessoas. É a população da cidade do Rio de Janeiro. São pessoas que, se você não tem seu site acessível, você está deixando de anunciar, de mostrar o seu produto, deixando de vender o seu trabalho. Eu não gostaria de me dar o luxo de perder um público desse. A questão é: estamos comprando, somos consumidores, queremos ser atendidos pela porta da frente. Nós, como somos cegos e quando coisas não têm acessibilidade, costumo brincar que a gente entramos na porta dos fundos em tudo, mas queremos entrar pela porta da frente, como todo mundo.

Karen de Souza
Claro. Todos merecemos. De verdade. Marcos, adorei conversar com você e te conhecer. Muito obrigada por ter vindo aqui ao Conexão. Volte sempre que tiver novidades, viu?

Marcos Silva
Eu sempre tenho.

Karen de Souza
Tá ótimo! Simone, muito obrigada! Você já esteve no Conexão por Skype e hoje está aqui ao vivo, conversando. Muito obrigada por sua participação!

Simone Freire
Obrigada a vocês!

Karen de Souza
Antes de terminar, eu queria mostrar o canal do Marcos no YouTube, o Histórias de Cego, né?

Marcos Silva
É Histórias de Cego. Curtam, compartilhem, comentem, critiquem. Mandem perguntas, porque é assim que funciona.

Karen de Souza
E também mostrar o site do Movimento Web para Todos, que é: mwpt.com.br. Você que trabalha com internet e quer tornar seu site acessível, então entre em contato com o pessoal do Movimento que eles vão te ajudar! Vamos todos trabalhar pela inclusão de todos na sociedade.
E o Instagram também do Marcos: @historiasdecego.
Muito obrigada pela participação de você! E, a vocês de casa, muito obrigada pela sua companhia!

Outras novidades

Você quer uma web para todos?

Abrace essa causa com a gente e compartilhe com seus amigos!