Entre o acesso e o encontro: a conexão da diversidade na era digital

As possibilidades de mobilização geradas nas redes sociais


Isa usa um vestido branco sem mangas que tem uma listra vermelha vertical na parte central e dois botões pretos ao lado. Ela tem cabelos castanhos que estão na altura da boca. Tem o olho direito verde e o esquerdo azul.

Por Isa Meirelles*

Meu despertar para a comunicação inclusiva foi enquanto trabalhava para uma grande empresa e convivia com pessoas com deficiência. Percebi que, como relações públicas, nunca tinha pensado em me comunicar com esse público (mesmo tendo uma deficiência visual no olho esquerdo), não os enxergava e, pior, não os incluía ao contexto comunicativo.

Pedi demissão e decidi que precisava exercer meu papel como comunicadora para garantir os acessos à informação e à comunicação participativa às pessoas com deficiência. Iria agir contra a exclusão comunicacional. Foi nesse momento que percebi que não conhecia e também não convivia com pessoas com deficiência. Da época da escola à universidade e mercado de trabalho, não tinha colegas com nenhum tipo de deficiência. No meu ciclo de amigos e conhecidos também não.

Como iria encontrar essas pessoas para entender suas linguagens e formas de comunicação? Como entender as melhores formas de criar conteúdo e acesso à informação? Quais são os canais mais utilizados? Meu primeiro grande desafio era me conectar com essas pessoas. Foi aí que percebi que eu possuía uma grande aliada e viabilizadora para isso: as redes de comunicação digital.

“Enxergar além do olhar.” Essa frase é de uma amiga empreendedora, umas das conexões criadas via rede, que sintetiza bem como nossa percepção de mundo muda quando trocamos de perspectiva e deixamos de olhar apenas pelo nosso olhar. Antes de encontrar no ambiente digital a possibilidade de conhecer muitas pessoas com deficiência e poder entender suas formas de viver, tinha uma percepção negativa dessa plataforma. Achava que ela apenas nos distanciava.

Sim, as redes sociais digitais possuem muitos pontos críticos, mas acredito que nenhum deles diminui sua potência como plataforma que possibilita que vozes, outrora escondidas, ecoem e façam ruído. As redes revelaram vozes que eu nunca havia escutado, formas de existir e comunicar que eu desconhecia e não percebia. São plataformas revolucionárias, que permitem disseminar culturas alternativas, formas de comunicação mais acessíveis e servir como ponto de encontro para discussões construtivas.

Foi nelas que eu me encontrei com pessoas com diversos tipos de deficiências. Nos grupos do Facebook e LinkedIn. seguindo hashtags sobre acessibilidade e inclusão no Instagram. Comentando, curtindo e compartilhando conteúdos de pessoas com e sem deficiência que atuam de alguma forma pela inclusão, seja na descrição dos produtos de suas marcas para o público com deficiência visual, na criação de acesso à linguagem de Moda para corpos diversos, ou ainda na produção de videoclipes musicais acessíveis, com audiodescrição, legendagem e interpretação em Libras.

São muitos que estão utilizando as conexões em rede para falar, engajar e inovar quando assunto é inclusão. Sou uma delas. Todo conhecimento que adquiri foi pelas conexões em rede, e encontrei nelas um caminho possível para influenciar pessoas e organizações de que há muitas outras formas de se comunicar no mundo e interagir nele. A seguir, vou contar algumas iniciativas de comunicação digital inclusiva que criam acessos e empatia em rede:

#FotoQueFala
E se as fotos pudessem falar? E se elas narrassem aquele momento que elas foram capturadas? As imagens se multiplicam como meio de comunicação na nossa sociedade, cada vez mais imagética. E se elas não forem descritas, acabam barrando o acesso das pessoas com deficiência visual ao seu conteúdo.
Como alternativa de comunicação inclusiva, criei essa hashtag com o objetivo de expandir o acesso de imagens em meio digital às pessoas com deficiência visual e humanizar a comunicação.

#AudioPost
Com o mesmo propósito da audiodescrição da foto, mas para textos escritos. Ao escrever um texto em site ou blog, é possível gravar um áudio com sua própria voz narrando o texto, daí é só acrescentar um player ao conteúdo! E é possível fazer além, porque não criar um Podcast com os áudios gravados? Esse formato de mídia vem conquistando muitos adeptos e também contribui para a comunicação inclusiva.

#PraCegoVer
Traduzindo imagens em palavras. Esse é o sentido da descrição que vem logo depois da hashtag. Criada pela professora brasileira, Patrícia Braille, como forma de conscientizar as pessoas videntes de que as pessoas cegas também precisam ter acesso às imagens. Usando essa hashtag, as pessoas com deficiência visual conseguem pesquisar nas plataformas os conteúdos com descrição e utilizar os leitores de tela para poder ver as imagens.

#PraSurdoOuvir
Muitas pesquisas indicam que o conteúdo em vídeo é o preferido entre grande parte do público e sua utilização vai ser cada vez maior. E as pessoas surdas ou ensurdecidas nesse cenário? Se não pensarmos nelas na hora de produzir vídeos com legendas e intérprete de libras, vamos intensificar o movimento de exclusão comunicacional. Uma medida que venho utilizando nas redes sociais é a utilização de legendas em vídeos com a hashtag.

Acredito que a multiplicação dessas ações em rede tem a potência de engajar organizações, empreendedores e novas iniciativas para a criação de plataformas, produtos e serviços com mais acessibilidade e, acima de tudo, humanidade.

*Isa Meirelles é uma comunicóloga que acredita na potência da comunicação para possibilitar que vozes excluídas sejam ouvidas. Relações públicas de formação, possui conhecimentos de moda inclusiva e audiodescrição. Atua com comunicação corporativa na Resultados Digitais e no engajamento digital por uma comunicação inclusiva e inovadora.

 

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