Embaixadores Web Para Todos: conheça toda versatilidade de Sarah Marques

Cega desde o nascimento, Sarah é analista de Tecnologia da Informação, coordena projeto que promove aulas de informática básica para pessoas com deficiência visual e é militante da acessibilidade digital



Sarah Marques está sentada, falando ao microfone. Há uma mesa na frente dela com várias garrafas de água. Ela tem cabelos castanhos longos e encaracolados.
Sarah Marques, analista de Tecnologia da Informação, durante o VIII Fórum da Internet no Brasil. Foto: Thiago Jesus e Célio de Lima Júnior.

Sarah Marques, 26 anos, é uma das mais de 26 milhões de brasileiras com deficiência. Cega desde o nascimento, sempre se interessou por tecnologia. Quando criança, gostava de utilizar o computador e explorar ferramentas. A  sua primeira formação na área foi no Ensino Médio ao cursar Técnico de Informática.

A partir de então não parou mais. É graduada em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e mestre em Ciência da Informação. Atua como secretária de Tecnologia e acesso à informação na Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB). Trabalha no Instituto Federal Fluminense e coordena, dentro da instituição, um projeto de extensão que promove aulas de informática básica para pessoas com deficiência visual, em parceria com organizações locais, desde 2012.

Mesmo representando diversas minorias, Sarah afirma não ter sofrido nenhum tipo de preconceito no ambiente em que trabalha. Mas aconselha outras mulheres, principalmente as que desejam ingressar na área, para que se mantenham firmes e defendam seus direitos.

“Nós, pessoas com deficiência e mulheres, conquistamos espaço no mercado de trabalho porque lutamos bastante para isso. Temos que continuar no caminho e ir atrás do que queremos, sem medo de sofrer preconceitos. Ter atitude e consciência dos direitos é muito importante, não de forma agressiva, mas de forma a fazer os outros perceberem que não se trata de favor. É um direito, liberdade, humanidade e respeito”, ressalta.

Justamente por ter consciência dos seus direitos, Sarah começou a militar pela causa da acessibilidade na internet. Em novembro do ano passado, ela participou  de um painel histórico no Fórum da Internet com a equipe do Movimento Web para Todos, onde também teve a chance de sugerir soluções para uma web mais inclusiva.

Confira, na íntegra, a entrevista que realizamos.

WPT – Por que você indicaria a área da tecnologia da informação para outras mulheres? Que conselhos você daria àquelas que pretendem trabalhar no setor?

SM – É uma área interessante em vários aspectos, na qual se exercita o raciocínio, mas também requer habilidades sociais. Além de disposição para estar sempre aprendendo coisas novas. Se for este o caso, eu diria para as mulheres seguirem em frente e enfrentarem os desafios de qualquer profissão. Nós, pessoas com deficiência e mulheres, conquistamos espaço no mercado de trabalho porque lutamos bastante para isso, então temos que continuar no caminho e ir atrás do que queremos, sem medo de sofrer preconceitos. Ter atitude e consciência dos direitos é muito importante, não de forma agressiva, mas de forma a fazer os outros perceberem que não se trata de favor, mas de direito, liberdade, humanidade e respeito.

WPT – Sendo mulher e cega em um setor cuja presença masculina é mais dominante, você sofreu algum tipo de preconceito? Caso sim, como você superou essas situações?

SM – Tive a vantagem de trabalhar na mesma instituição onde estudei. E, por isso, muita gente já me conhecia. Também percebo que, por estar dentro de uma instituição educacional, mesmo que não tenhamos contato direto com alunos, a diversidade é encarada com mais naturalidade do que em outros ambientes mais “corporativistas”. Não me lembro de nenhuma situação de preconceito nesse ambiente de trabalho, nem de ter presenciado algo semelhante com as outras mulheres que trabalham comigo. Apesar disso, sei que essa não é a realidade do país, já que as mulheres ainda sofrem muito preconceito na área da tecnologia. De qualquer forma, em todos os lugares que frequento, seja estudando ou trabalhando, faço o possível para demonstrar, na prática, que tenho competência para o que me proponho a fazer, que estou disposta a aprender. Não é a deficiência que vai me definir.

WPT – Qual é a reação das pessoas ao saber da sua formação e desenvoltura ao utilizar aparelhos eletrônicos e navegar na web?

SM – Embora as pessoas ainda tenham pouca informação sobre como pessoas cegas vivem com autonomia, inclusive em relação à tecnologia, hoje percebo que muita gente não estranha tanto como acontecia há alguns anos . Geralmente quem já teve ou tem algum contato com pessoas com deficiência lida com essas questões com mais naturalidade, e perguntam mais por curiosidade do que por estranhamento, mas o primeiro contato sempre causa mais surpresa, como aqueles que nunca viram um cego digitar a senha numa máquina de cartão de crédito (que não seja touch e que tenha botões físicos).

Acham a coisa mais incrível do mundo, mas, no geral, as pessoas ficam admiradas com a quantidade de atividades que eu faço. Isso porque eu trabalho desde os 19 anos. Sou concursada, terminei o mestrado com 24 anos e estou na segunda faculdade. Faço pós-graduação a distância, estudo idiomas, participo de movimentos sociais pelos direitos das pessoas com deficiência visual, canto e atuo no teatro.

Eu não conto isso para todo mundo. Geralmente, falo quando me perguntam, e tento mostrar que não encaro isso como uma superação da deficiência, como muitos exaltam, mas como força de vontade. Afinal, são conquistas que dão trabalho para qualquer um, com ou sem deficiência. E oportunidades que eu tive desde criança, em casa e na escola (não me refiro à questão financeira). Infelizmente essas oportunidades não estão disponíveis para muitas pessoas com deficiência no Brasil.

WPT – Quais são as maiores barreiras encontradas na web pelas pessoas com deficiência visual?

SM – Sites que são construídos fora dos padrões e, por isso, se tornam inacessíveis, como muitos sites de e-commerce. Também falta descrição para os produtos ofertados. Conteúdos dinâmicos que carregam automaticamente, inclusive a publicidade, podem gerar dados sem sentido para o leitor de tela e tirar o foco, o que atrapalha muito a navegação. E claro, os CAPTCHAs.

WPT – Ao contar com tecnologias assistivas e sites acessíveis, você consegue transpor as barreiras invisíveis de acesso?

SM – A tecnologia ajuda a transpor barreiras invisíveis, porque você pode interagir com pessoas que nem sabem que você tem uma deficiência e, por isso, não vão te tratar com preconceito. Você não precisa ficar provando que é uma pessoa “normal” o tempo todo. Por outro lado, a sociedade precisa saber e entender que pessoas com deficiência usam e precisam da tecnologia para criar ambientes virtuais acessíveis. A tecnologia nos ajuda em tarefas do dia a dia, que pessoas sem deficiência fazem sem a própria tecnologia. É o caso de aplicativos para leitura, locomoção, reconhecimento de fotos ou texto impresso, dinheiro, e fontes de informação que buscamos em substituição à informação impressa.

WPT – Qual é a importância das ações realizadas pelo Movimento Web para Todos?

SM – É um movimento importantíssimo que, além de conscientizar, orienta sobre a acessibilidade web, e o faz de forma bastante ativa. O que é fundamental para que as informações sobre o tema cheguem ao maior número possível de pessoas e empresas.

WPT – Em sua opinião, quais outras ações ou iniciativas podem ser realizadas para promover uma web mais acessível?

SM – Debater o tema em eventos de tecnologia, públicos e privados; incentivar o ensino de temas relacionados nos cursos da área de tecnologia nas universidades. Outro ponto importante é disseminar as tecnologias assistivas entre as pessoas com deficiência, pois muitas delas ainda não têm acesso à inclusão digital, e menos ainda a uma inclusão acessível.

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