A importância do contato com a inclusão e a acessibilidade

Artigo do professor Valter Lenine Fernandes, surdo, fala sobre a importância da empatia para a inclusão.


Foto do Valter Lenine Fernandes sorrindo. Ele está em um ambiente externo, próximo ao mar. Ao fundo, há um castelo. Ele é loiro, tem olhos claros e cabelos curtos.
Valter Lenine Fernandes. Foto: Arquivo pessoal.

Por Valter Lenine Fernandes* 

Ao longo de 2018, fiquei me perguntando como um surdo contribuiria com um texto para o site Web para Todos e algumas respostas iam aparecendo e outras desaparecendo. Pensei: a inclusão e a acessibilidade são espaços que precisam constantemente de contato, de criação e de recriação porque, caso contrário, as ideias desaparecem. Atualmente, nós, surdos, estamos presentes em diferentes espaços e temporalidades, fruto da luta de políticas inclusivas e de acessibilidade de gerações passadas e presentes na História.

Eu, Valter, posso dizer que a maioria das minhas conquistas é herança das leis de inclusão aprovadas no Brasil. Porém, as leis ainda não são cumpridas em sua totalidade nas instituições públicas e privadas.

Encontramos muitas dificuldades de acessibilidade e de inclusão. Recursos simples como legenda, letreiro digital, aparelhos que vibram quando estamos aguardando um pedido e/ou atendimento em um hospital, interpretação em Libras ou recursos de acessibilidade em um site. Esses exemplos são opções importantes que, se aplicadas, podem evitar barreiras que nos impedem de ter autonomia.

Neste mês, dei uma palestra em uma Instituição de Ensino e me convidaram para discutir acessibilidade e inclusão. Fiz com que eles pensassem na inclusão. Como? Apontei para o auditório e disse: eu estou apresentando uma palestra que todo o espaço é pensado para pessoas consideradas sem deficiência. Decidi, então, incorporar o papel de não ter deficiência para incluí-los na minha trajetória como surdo. Abri mão dos intérpretes, demonstrei que a organização do auditório não era em formato de U para que eu pudesse visualizar todos, a arquitetura não era adaptada, a iluminação era ruim e que, em algum momento, a plateia bateu palmas em Libras porque percebeu que me esforcei para fazer a inclusão do público.

Nesse momento, perguntei: “O que vocês fazem para incluir?” Vi inúmeras pessoas pensativas e logo percebi o quanto a inclusão e a acessibilidade precisam ser práticas social e cultural enraizadas na sociedade brasileira. Foram anos de silêncio e que agora cada vez mais vamos fazendo uma espécie de barulho. Sabemos também que precisamos de um tempo para a construção de novos espaços, mas esse tempo deve ser diário para que tenhamos um futuro próximo inclusivo e acessível.

O Movimento Web para Todos vem ao encontro daquilo que comentei no início do texto. Ele não deixa que esqueçamos de um público que deve ser lembrado quando se cria um site.

Aqui vem a lembrança de uma frase do Fernando Pessoa, um poeta português, “[…] perder um defeito, ou uma deficiência, ou uma negação, sempre é perder […]”. O que isso significa? É necessário que tenhamos constantemente uma preocupação do ineditismo com políticas de inclusão e de acessibilidade porque tudo constantemente está se aperfeiçoando: o carro, o telefone móvel e outras tecnologias. Teremos sempre defeitos e deficiências. Só não podemos esquecer quando criamos e recriamos porque, do contrário, todos perdem.

*Valter Lenine Fernandes é surdo oralizado e sinalizado. Doutorando pela USP e Professor do Instituto Federal Sul-Rio-Grandense.

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